José Peseiro e a síndroma Calimero

O início do jogo da final da Supertaça contra o SL Benfica foi algo de muito constrangedor. Os jogadores do SC Braga estavam totalmente perdidos, sem qualquer noção (aparentemente) do que se pretendia deles, em termos táticos. Não deixa de ser curioso que, momentos antes do primeiro golo dos benfiquistas, os comentadores da TVI referiam que o Braga não se estava a dar bem com o seu 4x3x3, tendo o outro comentador de serviço referido que, para ele, o Braga não estava em 4x3x3, mas sim num 4x5x1, ao que o terceiro comentador acrescentou que não, que o Braga estaria a jogar num 4x2x3x1...

A verdade é que o Braga não tinha qualquer esquema tático, pois os seus jogadores limitavam-se a correr atrás dos jogadores do Benfica. Parecia que nem os próprios jogadores bracarenses sabiam o esquema tático adotado. Por isso, não sou daqueles que entendem que o Benfica entrou forte no jogo. O que sucedeu foi que Braga entrou mesmo "à toa", que é como quem diz, entrou a perder. O primeiro golo foi só o corolário lógico desta trapalhada tática, que é, para mim, totalmente incompreensível numa equipa (e num treinador) que se quer vencedora. Depois melhorou, é certo. Principalmente na segunda parte, vimos uma equipa forte, rápida e a criar muitas dificuldades ao campeão nacional. A equipa tem qualidade, disso não existem dúvidas. Aliás, o jogo foi muito bom, para um jogo de início de época. Toda a Imprensa foi unânime em considerar isso. E também em considerar que existe alguma injustiça na forma como o Braga acaba por perder por 3-0.

As palavras de José Peseiro, no final do encontro, encontraram eco em muitos comentadores desportivos: o Braga não teve a sorte do jogo (que é bem necessária, como sabemos), pois no momento em que tinha o Benfica "encostado às cordas", acaba por sofrer o 2-0, em total afronta à corrente do jogo. Mas estas mesmas palavras do treinador bracarense (realçando a injustiça do resultado, fruto da nossa falta de eficácia) reforçaram, em muitos adeptos, a ideia de que o treinador não é o certo para a equipa. Nas redes sociais discute-se que as equipas de José Peseiro, praticando um bom futebol, reconhece-se, não são eficazes, não jogam para o resultado. São equipas de "pé frio". Além disso, alguns adeptos invocam a "síndroma Calimero" para qualificar a postura do treinador bracarense: perder sempre de forma injusta. Se existem equipas (e treinadores) "resultadistas", isto é, que jogam para o resultado, descuidando ou secundarizando o bom jogo de futebol (Fernando Santos é apontado como um típico treinador "resultadista"), as equipas de Peseiro encontram-se no outro polo: são equipas que privilegiam só o bom jogo, pensando que o resultado positivo surgirá como consequência natural e necessária numa equipa que pratica um futebol aberto e vistoso. Claro que uma derrota, para uma equipa destas, é sempre injusta. Daí a "síndroma Calimero".

O SC Braga habituou os seus adeptos, nos últimos anos, a estar na frente de todas as frentes. A lutar para ganhar, sempre. Referi na anterior crónica da importância deste início de época: o jogo da Supertaça e a estreia na Liga NOS contra o eterno rival de Guimarães. O primeiro jogo foi perdido. Resta recuperarmos no jogo de hoje. Um resultado positivo pode fazer esquecer a derrota do passado domingo. E demonstrar que muitas das ideias que os adeptos têm sobre o treinador são, na verdade, injustas. Mas um resultado negativo, esse trará consequência bem nefastas para a relação de José Peseiro com os adeptos bracarenses.