Última crónica e um adeus português

Última crónica e um adeus português
Miguel Carvalho

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BOLA DE TRAPOS - Miguel Carvalho despede-se dos leitores de O JOGO.

A dada altura dos jogos de Portugal no Euro-2020 dei comigo a pensar se, no caminho para o golo, a seleção só conhecia as rotundas de São João da Madeira.

Talvez seja impressão, mas fico sempre com a ideia de que, mesmo rematando muito, Portugal fá-lo sempre depois de engonhar ou tricotar ao ponto de esgotar-nos a paciência. Sejamos justos: não se trata da típica postura de sorna. Há ali trabalho, perseverança e talento. Refiro-me, isso sim, à mania tão portuguesa de enfeitar, de juntar mais um bibelot à cascata ou bordar um tapete de Arraiolos como se, sem isso, não houvesse uma epopeia camoniana à medida do nosso futebol. Talvez seja de sermos feitos de fado e de milagres, só pode...

Ora, isto é uma coisa. Outra é aturar a azia da trupe que passa do paraíso ao inferno num instantinho, como se aquilo que se construiu até agora fosse apenas Portugal no seu estado gasoso. Podemos não gostar do estilo nem do método, mas Fernando Santos levou a seleção a patamares nunca alcançados. E é triste ter de lembrá-lo. Às vezes foi a tossir? Foi. Algumas vezes com sorte? Também. Tem um grupo fora de série? Tem, mas também os há noutras paragens e é o que se sabe. O que a equipa já fez com este treinador não tem paralelo e devíamos ser "chicoteados" de cada vez que nos esquecemos disso.

Descontada a desilusão, é preciso reforçar o que este Euro-2020 ao retardador simbolizou, qual inesperada redenção para o quotidiano que vivemos, feito de dias receosos e angustiantes, num confina/desconfina que nos tolhe o alcance dos gestos e as ânsias do coração. Os estádios cheios, ou compostos, e a quantidade de jogos emocionantes (como os inesquecíveis Inglaterra - Alemanha ou o Croácia - Espanha) deram-nos, por momentos a (falsa) sensação de normalidade e a (ilusória) ideia de que a festa do futebol estava de volta. De vez. Infelizmente, não está. E pode até dar-se o caso de vermos o "silêncio" instalar-se, de novo. Mas, ainda que ao jeito de saída precária, foi retemperador voltar a sentir este misto de alegria, tragédia, frustração, resgate e libertação, como se o futebol recuperasse, por momentos, toda a plenitude da sua condição humana e desafiasse o vazio e as emoções robotizadas.

Foi esse futebol à escala humana que me trouxe a estas páginas durante mais de três anos e das quais me despeço hoje.

Quando o José Manuel Ribeiro me desafiou a fazer deste canto do jornal o que eu quisesse, aceitei sem pestanejar como o miúdo deslumbrado por uma bola que ainda mora dentro de mim. Prometi aos leitores escrever sobre essa corrente cúmplice que nos une e aquilo que agasalha e ilumina esta "religião".

Não me escondi, nem às minhas opiniões ou devoções, no "centrão" do futebol, onde tudo tem aparência de equidistância e imparcialidade (e depois, muitas vezes, é o que se sabe). Não obedeço a cartilhas nem confundo o amor à camisola com os donos dela. Deixo, pois, esta bola de trapos como a trouxe: fiel a um imaginário que nos leva a ser poéticos e sanguíneos na defesa deste maravilhoso desporto e das nossas cores, sem amarras e sem que, pela minha parte, disso fique estorvo, engulho ou azedume, para lá de saudáveis divergências. Obrigado ao diretor deste jornal por me ter proporcionado o regresso à mais pura das escritas, sem perda de inocência. Devo-lhe também o facto de, aqui e ali, em circunstâncias difíceis, ter resistido a uns quantos nervosismos externos, pouco familiarizados com opiniões livres. A todos os camaradas deste insubstituível diário, um abraço fraterno pela resistência e decência em tempos do avesso e pelos estímulos que me foram fazendo chegar. Por último, aos leitores, princípio e fim: de diversas formas, demonstraram-me militância por estas crónicas, mesmo quando delas discordavam. E só isso já é tudo.

Não sei se é este o apito final. Mas é, para já, o fim de uma etapa numa das minhas cadeiras de sonho. Foi um privilégio. Obrigado e vemo-nos por aí.