Quando a tribo salva o futebol e enterra o triunfo dos porcos

Quando a tribo salva o futebol e enterra o triunfo dos porcos
Miguel Carvalho

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BOLA DE TRAPOS - A opinião de Miguel Carvalho, aos domingos n'O JOGO.

À hora a que Cristiano exibia a musculatura no Instagram e Messi experimentava as novas chuteiras da marca que o patrocina, a tribo que os levou ao altar levantava a voz em defesa da pureza inicial do futebol e derrotava, em menos de 48 horas, a primeira revolução da História iniciada por milionários falidos.

Não deixa de ser irónico que, no auge da revolta contra a criação da privilegiada e elitista Superliga Europeia, as duas maiores vedetas do firmamento futebolístico, esquecidas das respetivas infâncias de trapos e da devoção popular que as trouxe até aqui, tenham ignorado a luta que juntou adeptos, atletas, treinadores, clubes, governos e patrocinadores em nome do que resta do caráter democrático de um desporto que não trafique ainda mais as suas origens, sentimentos e identidade.

Na verdade, CR7 e Messi talvez já não sejam propriamente jogadores, mas "produtos" ou "marcas" deste negócio manhoso que sobrevive de engolir um desporto cujas utopias, afinal, talvez não tenham perdido sentido: o fraco derrotar o forte, os débeis alcançarem o sucesso ou, pelo menos, terem a oportunidade de o fazer. O contrário seria "como dizer aos filhos dos operários que nunca poderão ser médicos", ilustrou, na mais bela metáfora destes dias, Roberto Di Zerbi, treinador do Sassuolo, de Itália. Ora, Se CR7 e Messi já só pensam nos clientes e não nos adeptos, está na hora de lhes darmos a resposta que merecem e virarmo-nos para os Rashford que por aí andam, com tudo no sítio: cérebro na cabeça e talento nos pés.

Outra ironia é ver a velha Inglaterra resgatar o que deu ao mundo. Dir-se-ia que onde o futebol nasce, não morre. Os protestos dos adeptos e a debandada de Chelsea, Arsenal, Manchester City, Liverpool, Manchester United e Tottenham da mesa da aristocracia do futebol, as pressões do governo e de patrocinadores quando Florentino Pérez já anunciava o triunfo dos porcos, ficará gravada na memória dos aficionados e será um momento a juntar à extraordinária galeria de feitos com origem nas terras de Sua Majestade.

À revolta juntaram-se clubes de outras geografias e Rummenigge, na Alemanha, falou, uma vez mais, em adaptar o futebol à realidade, ou seja, "reduzir custos". Infelizmente, entre portugueses, os exemplos só deram para rir: ver o Benfica a desmentir uma manchete sobre as suas alegadas tentativas de bastidores para assegurar um lugar à mesa de Florentino e ouvir Figo condenar a "ganância" dos promotores da Superliga são grandes momentos de humor.

Na verdade, nós, adeptos, já tínhamos engolido quase tudo, exceto este cenário distópico do pós-futebol. Aceitámos mudar a cor das camisolas todas as épocas a bem das receitas dos nossos clubes. Tolerámos a mudança dos nomes dos estádios, a entrega do nosso amor para a vida a oligarcas russos, milionários norte-americanos ou patos-bravos de dentro e de fora. Fechámos os olhos a off-shores, tiques megalómanos e gastos sumptuários na esperança de títulos e troféus. Caucionámos salários que ofendem a humanidade inteira. Batemos palmas aos déspotas que, aqui e ali, tomaram conta dos destinos dos nossos emblemas - e por vezes com o nosso voto - e deixamo-los sair mais acolchoados financeiramente do que quando chegaram.

Esta espiral de ambição, destempero e esquizofrenia que levou líderes dos ditos maiores clubes a este ensaio tresloucado de acharem que podiam chamar a si o que é de todos é também culpa nossa. No caso do presidente do Real Madrid, engenheiro civil de profissão e construtor afamado, já sabíamos que percebia de cimento. O que não sabíamos é que também o tinha na cabeça. Pode até ser um ideal romântico, mas, pelo menos, soubemos que o futebol que amamos tem demasiadas coisas em jogo para se desenrolar nas nossas costas e fora das quatro linhas. "A mudança nunca virá de cima", canta Billy Bragg. Britânico, pois.