BOLA DE TRAPOS - A opinião de Miguel Carvalho, aos domingos n'O JOGO.
Para começo de conversa, vamos lá simplificar as coisas, como dizia o outro: o FC Porto sofre de um problema crónico que, na verdade, é mais do País do que seu. Pelo menos desde 1987 que o "dragão" precisa "emigrar" para ser reconhecido.
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Nessas ocasiões, tal como se verificou há dias, os encómios da "intelligentsia" do meio futebolístico surgem em vários formatos, geografias e línguas, é só escolher. Mas quando se trata de fazê-lo em português, nem a mais berrante manchete ou comentário "especializado" disfarçam o ranço, o preconceito e a tendência para apoucar o mérito.
Desta vez, a pós-graduação europeia dos portistas foi alcançada em Turim, com o desplante, pasme-se, de expor as costuras da megalómana Juventus e adiar, pela terceira vez, a consagração do nosso bem-amado CR7 por terras do "calcio". Imperdoável! Apesar da vitória alcançada em circunstâncias épicas, só relevada pela excitada - e, pelos vistos, mal informada - Imprensa internacional, logo as vozes calejadas da pátria fizeram descer à terra a nossa alma desmemoriada: então não se vê, seus pacóvios, que esta "vecchia signora" não se compara à versão superlativa e mágica que o "glorioso" conseguiu despachar das provas europeias há umas épocas? Falta explicar como é que, em dezembro, a equipa agora eliminada pelo FC Porto fez gato-sapato do Barcelona em Camp Nou (0-3), mas não se estrague a perspicácia do raciocínio anterior. Resumindo, pois: esta Juventus "não joga nada". A outra é que era.
Ainda assim, tudo indica que a ilustrada tertúlia futeboleira da pátria de Camões, de "óculos de Penafiel" postos, se preparava para aplaudir a óbvia passagem aos "quartos" do compatriota mais famoso deste século quando lhe saiu ao caminho cidadão menos sonante. De facto, Sérgio Oliveira é um nome que tresanda a operariado e ganga coçada e nem para marca de roupa serve. Também podia falar-se de outro gigante dessa noite transcendental (Pepe), mas é possível que este português de seleção e coração possa também ser algo indigesto para os estômagos dos "portugueses de bem", essa estirpe que é garantia da linhagem, da pureza da raça lusitana e, já agora, da estupidez natural.
Foram imensos aqueles que, de norte a sul, anónimos ou figuras públicas, mesmo não simpatizando com as cores, se sentiram contagiados (e até emocionados) pela prova de caráter, abnegação e identidade dada pelo FC Porto em Turim, contra todas as apostas
O País tem um problema com o FC Porto? Não, não tem. Foram imensos aqueles que, de norte a sul, anónimos ou figuras públicas, mesmo não simpatizando com as cores, se sentiram contagiados (e até emocionados) pela prova de caráter, abnegação e identidade dada pelo FC Porto em Turim, contra todas as apostas. Muito menos existe uma conspiração jornalística contra o clube, como o FC Porto tantas as vezes imagina no seu delírio quixotesco, pondo-se a jeito. Mas isso não faz esquecer a casta que, debruçada à janela das suas virtudes, se vê refletida no umbigo ou no penico do País.
Não falta quem continue a conviver mal com uma cidade e um clube insubmissos e insuspeitos de vassalagens aos senhores do reino, apesar de diversas provas de lealdade. Há quem veja nisto "apenas" rivalidades da bola ou ciumeiras regionais. Mas talvez não seja por acaso que, volvidos 200 anos, ainda faça sentido celebrar a revolução liberal do Porto que abriu portas ao Portugal moderno, mesmo que se assemelhasse a uma horrenda rebelião aos olhos dos absolutistas da época. Se, perante a folha de serviços do FC Porto na frente externa e a reafirmação do seu estatuto diante da "Juve", ainda é preciso dizer "habituem-se", isso diz muito mais sobre um certo País do que sobre futebol.
P.S. O processo disciplinar aberto pela SAD do FC Porto a Fernando Saul, oficial de ligação aos adeptos, na sequência de insultos públicos a Cristiano Ronaldo e aos seus familiares, só pode acabar com uma punição exemplar. Caso contrário, será o próprio clube a manchar a página honrosa, digna e gloriosa que acabou de escrever na Liga dos Campeões.
