Mas a realidade é cruel: não faltam investidores de SAD"s em debandada

Mas a realidade é cruel: não faltam investidores de SAD"s em debandada
Miguel Carvalho

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BOLA DE TRAPOS - A crónica semanal de Miguel Carvalho

Primeiro, os bons exemplos.

Gary Neville, antigo defesa-direito do Manchester United das grandes glórias, mandou os funcionários dos seus hotéis para casa, pagando-lhes os salários na íntegra até que a pandemia deixe de ser um problema olhos nos olhos. Mas o ex-internacional não fez só isso: cedeu as unidades hoteleiras para instalar, de graça, os profissionais do Serviço Nacional de Saúde britânico. "Em tempos assim, temos de ser solidários", afirmou ele, não em chinês, mas como se tivesse de explicar o óbvio para inglês ver.

Neville sempre foi uma figura exótica da Premier League: nunca escondeu o ativismo político e até já se atreveu a chamar "charlatão" ao primeiro-ministro Boris Johnson pela forma como lidou com o imparável coronavírus. Talvez por contágio noticioso, correu também por estes dias que os hotéis de Cristiano Ronaldo em Portugal seriam transformados, num pestanejar, em alojamentos de emergência para hospedar médicos e enfermeiros. Afinal, era engano. Ou "fake news", como se diz agora. Fiquemos então com a verdade a que temos direito e a lição que interessa: desafiado pela humanidade, nem um defesa reformado deve manter-se na retranca como quem vive noutro planeta.

Treinadores e jogadores do Borússia Moenchengladbach também não ficaram pelas mensagens: abdicaram de parte dos seus salários para que os restantes trabalhadores do clube continuassem a ter emprego. Mas a realidade é cruel: não faltam investidores de SAD"s em debandada, despedimentos de jogadores ou até pré-anúncios de falência.

Por cá, Nélson Puga, médico do FC Porto, transformou-se na Saúde24 dos mais de 600 funcionários do Dragão e das suas famílias. Enquanto isso, Frederico Varandas despiu para já a fatiota de presidente do Sporting - onde continuava exposto a uma pandemia de energúmenos - e regressou às "trincheiras" que melhor conhece e onde os seus conhecimentos médicos podem fazer a diferença. De resto, do Benfica ao Belenenses não faltaram sinais de que certo futebol não confunde a vida com a vidinha.

Existe, porém, uma parte da pandemia que alguns senhores deste meio ainda não perceberam. Ou não querem perceber. Alguém lhes terá de explicar, a bem ou com um pau nas costas, se for caso disso.

Ninguém no seu perfeito juízo ignora que o momento é crítico para as finanças desportivas: campeonatos parados, salários chorudos para pagar, receitas que não entram e por aí adiante. Junte-se a isso a incerteza quanto ao regresso das competições a uma encenação de normalidade, pelo menos. Há mais de 130 ligas mundiais congeladas e o mercado futebolístico está ferido, e com profundidade, pela violenta rasteira do inimigo invisível.

Entre o desastre anunciado e os destroços que, mais cedo do que tarde, ficarão à vista, vai ainda uma trágica distância.

Se a pandemia nos obriga a olhar para dentro do que, nos nossos quotidianos, era parte de uma narrativa de stentação, exibicionismo, alienação e superficialidade, talvez seja o momento de o futebol se ver igualmente ao espelho, de preferência como veio ao mundo. A forma como o mercado o prostituiu, eivado de ranço, escândalo e desbunda, talvez não seja, daqui em diante, sustentável. Melhor dizendo: sustentável já não era. Mas agora o desporto-rei vai mesmo nu.

Esta não é uma profecia "à Nostradamus".

Será verdade antes que o futebol e os seus insaciáveis agentes tenham tempo de inventar mentiras e maquilhagens para perpetuar o círculo vicioso. Quem, nesse mercado, ainda não o percebeu, já é um morto-vivo. Só ainda não foi avisado.