Maradona fazia com os pés o que Sepúlveda criava com as mãos

Maradona fazia com os pés o que Sepúlveda criava com as mãos
Miguel Carvalho

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BOLA DE TRAPOS - A crónica de Miguel Carvalho todos os domingo em O JOGO

A pandemia levou-nos Luís Sepúlveda. Mas a morte, tal como o medo, não pode tudo.

Para sorte nossa, o escritor chileno deixou-nos romances, contos, artigos e palavras resistentes a todas as fatalidades e intempéries. De tão poderosas, são até capazes de semear esperança e sonhos em territórios tão improváveis, mas igualmente devastados por estes dias como o futebol.

O falecimento do autor de "Patagónia Express" foi, não por acaso, recordado num editorial de primeira página do diário italiano "Tuttosport", pela pena do amigo e jornalista ítalo-brasileiro Darwin Pastorin. Há uns anos, ele mesmo intermediou uma involuntária e inesperada conversa telefónica entre Maradona e Sepúlveda. Os dois nunca tinham falado e ficaram a admirar-se ainda mais.

O que Diego exibia em campo não é diferente do que Luís fazia na folha branca. A eternidade não seleciona os seus ídolos: eles é que fazem escolhas que os perpetuam na memória de gerações. Maradona fazia com os pés o que Sepúlveda criava com as mãos. Diego marcava golos poéticos, Luís inventava frases que eram passes a rasgar muralhas. Viscerais, mais dados à intuição do que à razão, tinham a faísca dos eleitos. Escreviam ambos com o coração, à flor da relva ou à flor da pele. Desse modo alimentaram narrativas de resistência e superação.

Ambos seriam titulares, de caras, no plantel do nosso imaginário. A literatura pode revelar-se em dribles mirabolantes. E o futebol escrever-se num capítulo de 90 minutos, por vezes a melhor página coletiva saída de quotidianos de trapos.

Sepúlveda deixou Hamburgo e escolheu viver nas Astúrias em 1997. "Aqui dividimos a humanidade assim: ou se é um filho da puta ou um dos nossos", disseram-lhe, entre copos de sidra. Ele ficou. Tornou-se adepto do Sporting de Gijón, de tradições operárias e credenciais de luta antifranquistas. O tal clube onde Fernando Gomes brilhou no jogo de estreia, há quase 40 anos, com cinco golos, quando iniciou o seu "exílio" espanhol.

O escritor crescera fanático do Club Universidad de Chile e admirador do antigo jogador do Colo-Colo e do Espanhol (de Barcelona), Carlos "El Rey del Metro Cuadrado" Caszely. Não tanto pelo seu talento, mas sobretudo por ter recusado cumprimentar Pinochet e ser um ferrenho opositor da ditadura. Sim, Sepúlveda apreciava quem não se resigna ao destino, aqueles que ousam sair da moldura. Esses que até podem ser apanhados em fora de jogo, no relvado ou na vida, mas desafiam limites. Como Messi "o rato", e Cristiano, "o gato", alcunhas dele.

O futebol, tal como a literatura, não tem fronteiras. Nem pátria. Palavra que provocava enorme repulsa a Sepúlveda, confessou-me o próprio numa conversa pela tarde fora no alpendre de sua casa de Gijón, em 2003. "Se és um patriota excluis os demais, ou seja, achas que és o melhor e ignoras o valor dos outros. É uma palavra que deveria desaparecer", argumentou ele.

Como não transpor estas palavras para os tempos que correm?

Da política ao futebol, há demasiados patriotas fardados, armados em visionários ou travestidos de paladinos de euforias irreais, cada um por si. Não querem salvar nada: querem salvar-se, simplesmente. Nestes, como noutros temas, o escritor entrava a pés juntos e daria por certo um defesa central de meter respeito. Lê-lo devolve às palavras o seu valor real, pois é delas que se alimentam os sonhos e os atos de criação de longo alcance. O futebol carece deles urgentemente quando a ruína financeira ameaça muito dos seus fantasiosos alicerces. Mais do que nunca, o jogo das nossas vidas dispensa esforçados gestores de circunstâncias. Precisa, isso sim, de escrever uma nova história com a chispa de génio que cabia nas chuteiras de Maradona ou nos livros de Luís Sepúlveda.