Jogos à porta fechada são a negação do próprio futebol

Jogos à porta fechada são a negação do próprio futebol
Miguel Carvalho

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BOLA DE TRAPOS - A crónica semanal de Miguel Carvalho

Parafraseando o refrão de uma velha e deliciosa cantiga de Sérgio Godinho, há vários motivos para lermos o mais recente gesto do "comandante" Lionel Messi no Barcelona como o primeiro dia do resto da vida do futebol.

A pandemia chegou ao mundo desportivo e levou as "estrelas" masculinas do clube catalão a reduzir 70 por cento nos seus ordenados e a destinar uma verba à manutenção dos postos de trabalho dos funcionários, desde sempre parentes pobres do negócio. O desenlace não foi pacifico: os atletas detestaram ter sido apresentados, de dentro para fora, como maus da fita, quando até teria partido deles a iniciativa de baixar vencimentos.

Também aqui, o resultado é que conta: a liderança da revolução salarial no Barça foi contágio global e valeu a Messi uma capa icónica no "L´Equipe", com boina à "Che", ampliada pelo facto de tanto ele como Ernesto Guevara serem argentinos e ambos naturais de Rosário.

Enquanto adeptos fanáticos são remetidos ao casulo e se entretêm a ver clássicos requentados nos canais, por agora, de livre acesso, o mundo do futebol pula e avança. Como sempre, à margem dos poderes instituídos. Por estes dias, os ilustres senhores da FIFA, da UEFA e das ligas milionárias continuaram, matreiros, a tentar encontrar estratagemas para pôr, de novo, o carrossel a andar. Sugerem treinos a dois e jogos à porta fechada, sem se lembrarem de que essa é a negação do próprio futebol. Onde não há povo e uma réstia de comunidade, sobra apenas uma simulação da realidade.

Tudo seria compreensível - até os operadores televisivos mereceriam compaixão - se hospitais, cercos e morgues não tomassem conta das nossas cidades, dos nossos olhares e das nossas vidas. Essa é a recordação que ficará para sempre. A de um título de campeão desvanecer-se-á. E vale zero nestas circunstâncias.

Carlos Tévez, ídolo do Boca Juniors, veio há dias meter-se entre comodismos e oportunismos: "Um futebolista pode viver seis meses ou um ano sem receber salário", afirmou. "Nós não somos como todas aquelas pessoas que têm de sair de casa às seis da manhã e que regressam às sete da noite para alimentar a família que tem fome". Tévez apelou ao envolvimento de jogadores e clubes na ajuda a "gente desesperada que não se pode mexer ou deixar a casa". Menos vídeos e mais ações, reclamou, como se nunca tivesse saído de Forte Apache, o bairro onde sobreviveu a fintar sentenças de morte diárias.

Vou esperar sentado até que dirigentes das multinacionais do futebol sejam tão eloquentes, mesmo falando com os pés, como Tévez o foi usando as palavras.

Mas se alguém quiser apenas olhar para o umbigo do futebol, bem podia seguir os conselhos de sua excelência Diego Maradona. Que pediu "Deus" ao mundo? Isto: repliquem o exemplo dos grandes clubes alemães, que destinaram vinte milhões aos pequenos emblemas em dificuldades, e protejam o futuro dos miúdos dos escalões inferiores através de um fundo suportado por jogadores e treinadores que passaram a vida a ganhar toneladas de dinheiro.

Parece simples, mas não é.

O futebol que sairá desta devastação humana está, porém, obrigado a ser mais solidário, a fazer pontes e a olhar para o negócio sem perder o sentido de casa comum. Os clubes terão de fazer mais trocas entre si, apostar nos talentos entre portas e adaptar-se a uma realidade sustentável. Há uma tecla nos computadores chamada "reset". O futebol deveria usá-la antes que um vírus se instale de vez, afete o seu disco duro e impeça a recomposição de parte do que nos fez amá-lo enquanto memória, imaginário e devoção. De prolongadas tragédias nascem revoluções. E estas podem começar mesmo quando estamos isolados.