Afinal, para quê um 5G?

Marta Pinto

Opinião de Marta Pinto, gestora de investigação sénior na International Data Corporation (IDC).

Seja num ambiente profissional, educativo ou de entretenimento, todos os utilizadores já encontraram a temida frase "a sua conexão está lenta". Rogar pragas ao círculo no ecrã ─ que faz desesperar quem tem de aceder a conteúdos online ─ tem no 5G uma promessa de melhoria significativa.

Enquanto numa reunião menos aprazível de trabalho, um desfasamento temporal ou uma pausa podem até ser bem recebidos, num contexto de transmissões ao vivo, esse desfasamento pode ser determinante. Imaginemos dois casos concretos:

⦁ streaming de desportos e e-sports em que qualquer desfasamento ou pausa temporária pode resultar em quebras de audiência e frustração para quem está a ver o jogo;
⦁ ou, num outro contexto, cirurgias feitas remotamente em que qualquer desfasamento pode, eventualmente, resultar em graves consequências para os envolvidos.

Ora a solução passa não só por equipamentos periféricos mais adequados, mas também por uma melhoria da capacidade da rede à qual esses equipamentos - quaisquer que estes sejam, desde telemóveis aos robôs de aspiração - se ligam.
E porque é que isto tudo é importante agora?

Porque durante os períodos de confinamento, o aumento do número de equipamentos ligados à rede aumentou, colocando um esforço adicional nos prestadores de serviço de conectividade para manter a rede a funcionar com um aumento de tráfego. Foram escolas e empregos transformados em salas virtuais de aulas e reuniões, festas de família feitas nas mais diversas plataformas de comunicação, sessões de conversas virtuais entre amigos, filmes e séries consumidos horas sem fim em streaming e milhares de horas de jogos interativos online. Sem contar com as consultas médicas realizadas online, horas de aulas de ginástica transmitidas nos ecrãs, transações comerciais para aquisição de bens do quotidiano... tudo online. O esforço adicional exigido à rede na qual todo este "trânsito" passou foi imenso.

E porque é que isto tudo vai ser importante?

Porque grande parte dos serviços que passaram a ser feitos online (como as compras) transformaram os hábitos dos consumidores. Porque o trabalho remoto / híbrido apresenta para algumas famílias a flexibilidade necessária para conjugar o mundo pessoal e profissional e porque as empresas conhecem melhor, agora, que funções podem ser cumpridas no espaço "outside the office" e a partir de onde os colaboradores se sentirem mais produtivos. Porque os desportos digitais (esports) ganharam novos adeptos, e, por último, porque a automação e a internet das coisas (IoT) continua a crescer tanto nas empresas como em casa. Tudo somado, significa mais equipamentos ligados em rede e à rede.

O 5G vem trazer algumas soluções quanto à capacidade de resposta da rede para que possamos usufruir todos das comodidades de fazer compras online ou ver um jogo ou filme sem as temíveis interrupções ou desfasamentos (e sem ter de contar com a celebração dos vizinhos que são adeptos da equipa oposta para saber o resultado de um jogo).

Tal como aconteceu na implementação de outros Gs (4G, 3G, etc.), com o 5G houve de novo uma série de desinformação: por todo o Mundo, as teorias da conspiração multiplicaram-se com consequências até para a própria rede já existente, quando, por exemplo, na Holanda algumas estações base foram destruídas. Curiosamente os incitadores das teorias da conspiração não tiveram em conta que para passar a mensagem estavam a usar meios de comunicação que dependem totalmente da rede existente.

Mitos à parte, o 5G trouxe ainda debates sobre o investimento nos leilões de espectro, com alguns países a arrecadarem milhares de milhões de euros e a dificultar a situação financeira dos operadores que querem, o mais rapidamente possível, por esta nova Geração a funcionar. Em Portugal, o atraso no leilão e as querelas que gerou tem sempre impacto no utilizador final, que não tem acesso a tal capacidade de rede melhorada; e no fim de contas impacto em toda a economia, dado que o investimento na digitalização requer uma infraestrutura capaz de receber maior tráfego.

Além disso, tal como ninguém sonhou com negócios como o Uber, Airbnb ou Glovo, que só foram possíveis depois do 4G estar operacional, também não é ainda claro que novos modelos de negócio o 5G poderá trazer. Enquanto não houver uma rede a funcionar e os utilizadores não entenderem os novos casos de estudo, cabe apenas à imaginação pensar nas possibilidades. Para já, o crescimento das soluções empresariais e de gaming usando realidade virtual indicam que há uma forte probabilidade de o caminho ser por aí.

O recente lançamento das Horizon Workrooms pelo Facebook abre possibilidade a novas salas de aula, de formação profissional, consultas médicas e de reuniões remotas. Tudo isto já é uma realidade, mas com mais capacidade de rede será uma experiência significativamente melhorada para o utilizador.

E o 6G? Para que servirá?