A difícil arte de conviver

Neste tempo em que a imigração mete medo a muita gente, em que olhamos para o outro com desconfiança, olhando para os nossos 92 olímpicos temos alguns atletas que nos dão ideia de como vai o mundo. Fu Yu e Shao Jieni, as nossas mesatenistas que ontem perderam, nasceram na China (Jieni chegou a Gondomar em 2010 e tem nacionalidade portuguesa desde 2015); ontem, também perdeu o judoca Sergiu Oleinic, nascido na Moldávia, que veio atrás do irmão - e do judo - quando tinha 16 anos e queria muito oferecer uma medalha a Portugal. Há muitos outros, como Tsanko Arnaudov, este que fez toda a formação de lançador de peso já em Portugal.

Na sequência da vitória no Europeu de futebol, um grupo de imigrantes (ou filhos de) escreveram uma carta publicada no "Público" a queixarem-se de que, apesar da multiculturalidade da seleção, está quase tudo por fazer. Do que me lembro de ler - não a encontrei agora - queixavam-se ainda de que não há deputados negros, ou apresentadores de televisão, ou noutras profissões importantes, e ainda dos bairros que são guetos. Não tenho dúvida de que, se o escreveram, é porque o sentem, é porque esse problema existe. E se eu não dou conta dele, é porque os meus olhos são diferentes naturalmente.

Mas isso não tira que, apesar de tudo, Portugal consiga viver razoavelmente com estas diferenças. Nem tudo é ótimo, mas temos uma história de aproximação aos outros, de não rejeição. Nem digo mais que isto, se não sou capaz de ser acusado de alguma coisa injusta. Sei que Eusébio, Coluna, Deco, Obikwelu os sinto portugueses, ligados ao Hino, à língua, aos valores gerais. Como o Oleinic, a Fu Yu e a Shao Jieni. E mesmo que algum tenha vindo só porque o dinheiro era mais fácil, paciência, não há, entre os portugueses, nenhum que seja absolutamente exemplar. Mário Quintana, um brasileiro que sabia e escrevia sobre tudo, dizia que "a arte de viver é simplesmente a arte de conviver; simplesmente, disse eu? Mas como é difícil." Gosto de acreditar que para os portugueses é um bocadinho menos difícil do que para outros...

Alto: Seleção de futebol

Já está qualificada para a fase a eliminar, o que permite gerir alguma coisa no terceiro jogo. Deu a volta ao marcador, depois de ser surpreendida aos 35 segundos com um golo das Honduras e os rapazes parecem mesmo quererem resgatar os seus nomes depois de os clubes os terem cedido só - ou quase - porque não faziam falta. Gonçalo Paciência já vai em dois golos em dois jogos, magnífico, ele que geralmente não tem o golo tão fácil assim.

Baixo: Nando de Colo

Filho de emigrantes portugueses em França, este basquetebolista da seleção da França esteve ligado a uma derrota copiosa de mais de 20 pontos (87-66) frente à Austrália. Foi um mau começo mas, por falar em emigração, aí está um meio português a ser ídolo por essa Europa fora, já que ultimamente até joga no CSKA Moscovo.