"Peter Pan com bola": de África até à Europa

"Peter Pan com bola": de África até à Europa

PREMIUM >> Enquanto para Santa Cruz, 38 anos, tal significa, ao fim de 16 épocas, após Bayern Munique, Blackburn e Málaga, um regresso à sua "casa guaraní", para Abebayor, tal significa, aos 36, mais uma viagem no seu interminável percurso

1 - Viajando pelo meu planeta, deparei-me, vendo jogar o Olímpia do Paraguai, com uma dupla de ataque que, por momentos, julguei ter vindo numa máquina do tempo. Abedayor-Roque Santa Cruz, dois velhos caminhantes dos relvados "old school".

Enquanto para Santa Cruz, 38 anos, tal significa, ao fim de 16 épocas, após Bayern Munique, Blackburn e Málaga, um regresso à sua "casa guaraní", para Abebayor, tal significa, aos 36, mais uma viagem no seu interminável percurso "trota-mundos" que um dia começou no Togo e passou depois por 10 clubes, entre grandes como Arsenal, Mónaco, Real Madrid, Tottenham e Manchester City. Estava agora na Turquia, antes de ir para o Paraguai. Fez uma carreira sem medos. O melhor momento terá sido no Arsenal, que o servia na perfeição. O mais alto, estar no Mundial"2006.

2 - Vejo-os jogar contra o Defensa y Justicia. Jogam quase parados no ataque. Mas, enquanto Santa Cruz, claramente mais pesado, faz disso uma afirmação de jogo, Adebayor não resiste a continuar a dar tudo para chegar às bolas, mesmo as já perdidas. Foi isso que motivou (depois de Santa Cruz ter saído à meia-hora por dor muscular) a sua expulsão quando querendo chegar, em esforço, a uma bola que lhe fugia, entrou num gesto de karaté que em vez de a apanhar, acertou num adversário que aterrou logo. Cartão vermelho, sem discussão.

Adoro jogadores veteranos, que desafiam os limites do tempo, mas raramente estas histórias correm muito bem. A América do Sul tem, no entanto, uma reverência mais profunda por estes exemplares do que os Europeus, mais frios que querem ver sempre os talentos (como as emoções) cotados em bolsa.

Adebayor têm, no entanto, um perfil distinto dos "caudillos" latino-americanos. Tem o perfil de um chefe de tribo africana que, numa CAN em Angola, resistiu a um atentado a tiro ao autocarro onde viajava a seleção do Togo (e no qual morreu o motorista e ficaram gravemente feridos, sem poder voltar a jogar, dois jogadores). Se nem mesmo nesse cenário Adebayor tremeu, imaginem num campo de futebol.

3 - Anseio ainda ver a final da Taça de Espanha desta época porque para além de pela primeira vez ir ser disputada num "dérbi basco" Real Sociedad-At.Bilbau, quero ver Aduriz, com 39 anos, a entrar em campo, mesmo que não seja titular.

Já no início desta época ele hesitou muito em continuar, com receio do corpo já não lhe obedecer, mas o golo monumental que marcou numa bicicleta à meia-volta contra o Barcelona logo na primeira jornada tirou todas as dúvidas.

Aduriz "quase quarentão" continuava inteiro no único clube no mundo que verdadeiramente representa um país, uma região, um povo, por só admitir no onze, desde a sua fundação, jogadores bascos ou oriundos das províncias vizinhas, Navarra e La Rioja. É como um ultimo refúgio do futebol pré-globalização. Continua, mesmo com esta política que limita contratar jogadores que o fariam muito mais forte, a ser das poucas equipas que nunca desceram na I Liga espanhola, da qual foi fundador.

4 - O At. Bilbau é um sentimento que não se explica. Mas que se pressente vendo jogar Aduriz. Gosto muito mais do futebol que joga a Real Sociedad esta época (onde também só alinham bascos mas que admite jogadores estrangeiros) mas é o At. Bilbau que me faz, por desafiar a passagem do tempo, emocionar quando os vejo jogar. Ganhar ou perder, é outra questão.

Aduriz é um n.º 9 com um estilo que lhe permite adaptar-se a diferentes formas de jogar. Nunca teve a velocidade como principal arma mas sim o sentido de movimentação para atacar o espaço/bola de remate, mesmo com pouca relva disponível. Esse sentido de... antecipação continua a ter, porque a velocidade na cabeça continua intacta. E nesses curtos metros, o corpo reage praticamente igual.

O chamado povo da língua estranha, o Euskadi, não admite mudar a história. Escolheu ser David quando podia ser perfeitamente Golias. Escolheu vencer sempre, para ganhar menos.