Exclusivo "Ir embora agora que começamos a ganhar?"

"Ir embora agora que começamos a ganhar?"
Luís Freitas Lobo

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PLANETA DO FUTEBOL - Um artigo de opinião de Luís Freitas Lobo.

1 São jogadores que atravessam o tempo. Quando Joaquín subiu das camadas jovens para a primeira equipa do Bétis, o futebol espanhol ainda vivia preso à fúria que mais do que definir um estilo de jogo traduzia antes um estado de ânimo que, desde sempre, moldara o "balompié hispânico", um futebol historicamente de lágrima fácil pela forma como, nos momentos das grandes decisões, perdia.

Um dos últimos atos desse "fútebol espanhol" a cair trincando a língua, sucedera no Mundial 2002, com Camacho, um exemplar sublime e perfeito dessa "fúria", então como treinador, à beira dum estado de nervos de pé no banco como num filme de Almodóvar.

2 O jogo ainda mais cravou essa ideologia porque defrontou uma equipa treinada pelo treinador, José Bordalás, que, no atual panorama espanhol, mais preconiza a fúria feita nesta "versão 2022" de lances divididos, bloco médio-baixo agressivo nas recuperações e, até, dureza por vezes excessiva nas marcações. Basta ver como acabou amassado, marcas de pitons e pisaduras por todo o corpo, o grande criativo franco-argelino bético Fekir. Mal tocava na bola, era arrancado pela raiz. Foi, porém, este estilo que trouxe Bordalás das profundezas dos bancos das divisões secundárias para a elite espanhola, onde destacou-se com um terrível Getafe, cujo onze formou um exército que foi longe até na Liga Europa.

3 O confronto Pellegrini-Bordalás foi, assim, como um choque de conceitos. Fez faísca e só foi decidido nos penaltys. Ganhou o Bétis mas, no jogo jogado, durante muito tempo quase não conseguira respirar com a bola, só o conseguindo (após um bom inicio) quando a intensidade física valenciana baixou naturalmente com o passar dos minutos. Foi então que surgiu a técnica da história andaluza e Joaquín entrou em campo. Balzaquiano, sem ter o antigo poder de arranque veloz, incorpora agora também o "espírito bético" que reza a lenda foi traduzido da melhor forma por um jogador dos anos 60/70 chamado Rogelio. Jogava muito mas não era grande amigo do chamado espírito de sacrifício para jogar. Conta-se que quando do banco ou das bancadas lhe gritavam para correr mais, ele, altivo, de mãos nas ancas, respondia tranquilo: "Correr é para cobardes!".

4 As lágrimas emocionadas de Joaquín (após 13 épocas no Bétis, tendo no meio passado por Valência, Málaga e Fiorentina) espelhavam o que significa, neste estilo e contexto, esta Taça. É que durante o seu tempo de carreira, o Bétis tanto já foi à Champions como desceu de divisão. No fundo, perdeu muitas vezes a fórmula certa de como encaixar-se a nos novos tempos (entre a técnica e a intensidade). Joaquín sobreviveu a isso tudo e, assim perto de fazer 41 anos, quando lhe perguntaram se seria a altura certa para acabar respondeu de pronto: "Nem pensar, vou continuar! Então ia embora agora que começamos a ganhar?". No dia seguinte, renovou por mais uma época. Grande!