Premium Estas são caras do futebol

Jonas "decide" o treinador, Keizer ordena o primeiro toque, Sérgio Conceição festeja como se sente e Claudemir afina o relógio

1 - Quando Jonas rematou cruzado aquela bola que valeu o 1-0 já na segunda parte e festejou o golo, trepando bancadas a beijar o emblema para se abraçar aos adeptos, alguém que tivesse visto e não soubesse de nada, imaginaria que esse golo valia um título. Mas não, era "apenas" um jogo com o Feirense à 11ª jornada. Um jogo, claro, importante, mas sobretudo porque o "interior benfiquista" o levou a atingir tal dimensão. Rui Vitória continua treinador do Benfica. A opção teve origem num "feeling". Ser treinador em Portugal é uma profissão surrealista. A única razão sólida para alguém continuar, sobretudo como treinador dum grande, seria (é) só a competência. Como ficará se a bola tiver vontade (o "feeling") de bater no poste no próximo jogo? Mais uma vez se prova como os jogadores ficam à frente de todas as decisões. À frente de adeptos, imprensa, (o treinador, claro), diretores e até o próprio presidente. Sigam o Jonas!

2 - Marcel Keizer estreou-se pelo Sporting no campeonato e deixou mais do que só indícios das suas ideias de jogo. Já mostrou muito da ideologia global. Fala-se na necessidade de tempo para colocar uma equipa a jogar como se quer, mas tal é, na sobrevalorização desse tempo, um mito. Fazer pressão alta, com linhas juntas em posse, e voltar a pressionar para recuperar rápido, não é inovador, mas colocar a equipa a pensar ao mesmo tempo a mesma coisa de forma tão rápida na operacionalização da ideia no jogo mostra como se trabalha/treina/comunica bem. A base é jogar a um, dois, três toques (este terceiro é o máximo) e assim triangular em progressão veloz, zona interior e faixa. É este ponto, jogar... pensando/executando rápido, que mais me impressionou no Sporting de Vila do Conde. Nomes próprios diferentes: Nani mais por dentro em "jogo posicional" e Wendel adiantado a ganhar a bola e a atacar o espaço. Veremos agora a consistência da ideia.

3 - Naturalmente que condeno a indisciplina, mas o ato de celebrar um golo é, por natureza, uma atitude excessiva e quase selvagem. Só quem não sente o futebol pode condenar isso. Sobretudo se for um golo a ferros no último minuto. Não escrevo isto só pelos festejos de Sérgio Conceição, mesmo "picado" com o banco do Boavista (porque esse jogo de emoções mútuo é o "sangue que corre nas veias" de um jogo de futebol). Nem pela forma como Jonas festejou, ou por ver jogadores levar amarelo por tirar a camisola e o Ronaldo por dar um pontapé na bola para o ar depois do penálti. No fundo, escrevo por isso tudo.

A nossa aproximação e paixão pelo futebol é primária e selvagem. Quem não entender este seu lado emocional, não entende o jogo. Custa ver esse não-entendimento nas regras e arbitragens.

De Paulinho a Claudemir

Há golos e golos. Ronaldo marcou recentemente um ao Manchester, em que, após um passe longo, rodou e rematou de primeira sem deixar cair a bola, e foi posto na lua. Na última jornada, em Braga, vi outro, que, na jogada/execução repetiu muito do gesto.

Também passe longo bem medido, mas com a diferença da rotação e remate sem deixar cair ter sido de muito mais longe, mais forte, mais ao ângulo, de mais difícil execução, esticando mais a perda, enfim, mais tudo. O autor foi Paulinho que depois até festejou com uma expressão e gesto enigmático apontando à cabeça. Seguindo satélites e planetas, o seu autor devia ter sido posto em Marte. Continua na nossa relva terrena. Talvez encontre um buraco na seleção um dia. É um exemplo de superação. Personalidade e jogador. O passe também foi excelente, mas disso o Abel nem deve querer que se fale muito porque as equipas ainda não perceberam como condicionar este Braga. Por uma razão: ainda não perceberam que a chave e referência em qualquer momento do jogo é Claudemir. Equilibra (e ordena) a equipa toda.