Premium Eles são mesmo diferentes

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PLANETA DO FUTEBOL - Luís Freitas Lobo analisa o momento do Benfica e as faces do FC Porto

1 - Foi a questão que ficou sempre em aberto nas duas últimas derrotas benfiquistas na forma de reagir aos jogos: mexer no meio-campo (mudar as suas dinâmicas, características dos jogadores, movimentos, meter mais criatividade diferenciadora). Em ambos, Rui Vitória não teve essa agilidade tática. Limitou-se a despejar avançados na área (perdendo até médios com isso). Com temo para pensar dum jogo para outro, já foi diferente e contra o Ajax ressurgiu, finalmente, o elemento criativo, Gabriel, que com Belenenses e Moreirense nunca saíra do banco, nos tais momentos de vazio criativo-mental. Como, com ele, perdia intensidade sem bola, tirou Pizzi para manter a maior ação "recuperadora de contacto" de Gedson (Fejsa é intocável). Queria um 4x3x3 que conseguisse ser um 4x2x3x1 mais rochoso sem bola na dupla central de cobertura. E conseguiu.

2 - O problema foi mesmo de técnica. Questões práticas de execução no jogo. De como Gabriel falhou um fácil "passe de golo" (como eu chamo às "assistências") e como, do outro lado, Ziyech inventou outro para onde pôs os olhos pôr a bola, à frente de Tadic (e nas caras de susto de Rúben Dias e Vlachodimos, que tinha de sair mais rápido). O jogo resolvia-se mesmo no meio-campo e a diferença era fácil de ver: o Ajax tem melhores médios (Schone, De Jong - um jovem catedrático - Ziyech) e quem, em campo, os entenda de perto.

3 - O FC Porto "dos três médios" (que venceu o Lokomotiv) tem uma dinâmica equilibrada superior ao FC Porto "dos dois pontas de lança" (que venceu o Marítimo). A busca de Sérgio Conceição será conciliar o melhor dos dois mundos táticos. A forma do 4x3x3 se transformar em 4x4x2 e o 4x4x2 em 4x3x3. Há jogadores que potenciam isso, há outros que o limitam.

Marega como nº9 sozinho do 4x3x3 ("versão três médios") fica com a "natureza físico-potente" enjaulada (o oposto de quando cai em largura e explode, na "versão dois pontas-de-lança"). O 4x3x3 com Danilo-Oliver-Herrera dá, porém, uma segurança superior à estrutura de só dois médios puros (poucos para, nas transições, cobrir 70 metros de largura).

A solução é um terceiro médio híbrido (que tanto saiba abrir na faixa como fletir por dentro). É o que faz o melhor Otávio, que vale assim pela diferença (criativa com a bola) e pelo que permite aos outros fazer (libertar Marega para cair na direita, enquanto ele se torna o... "terceiro médio" por dentro). Isto a partir dum 4x4x2 (tão falso como verdadeiro). O novo Oliver "mais intenso sem bola" também podia ser uma opção mas é mais organizador de passe e não criativo de movimentos como Otávio, que relaciona melhor dessa forma a faixa com a zona interior e vice-versa.

Porcelana técnica

É hoje um jogador para ser tratado como se fosse uma porcelana ou uma peça valiosa de cristal daquelas com que tem de se ter todo o cuidado do mundo para não deixar cair, que se pode partir facilmente. É assim que vejo o atual Jonas, o seu momento (idade/fase da carreira e marcas físicas). Para o meter e tirar da equipa, sem o deixar cair e partir-se, Rui Vitória tem que ter o cuidado de quem usa um bisturi. O jogo com o Ajax foi um bom exemplo desse exercício cirúrgico de utilização de Jonas. Quando entrou, quando ponderou a sua saída após abalroado por De Ligt, e quando saiu na segunda parte. O problema é que toda essa cirurgia pode não coincidir exatamente com as necessidades da equipa (ou raras possibilidades de passar bem sem ele, o que, em rigor, praticamente nunca acontece). Sem Jonas, parece que falta um jogador ao onze. Parece que joga em inferioridade. E joga mesmo, não numérica, mas na qualidade/capacidade de ganhar/resolver o jogo.

É possível aguentar uma época toda assim? Com a equipa noutro estado (tático-técnico-mental) era. Com a equipa neste estado, Jonas brilhará sempre. O problema é quando o fizer pela ausência.