Foi tudo isso e muito mais! 

Luís Freitas Lobo

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PLANETA DO FUTEBOL - Uma análise de Luís Freitas Lobo

1 - Não costumo citar treinadores brasileiros, mas esta vem mesmo a propósito e foi na semana passada quando perguntaram ao Cuca a razão do seu At. Mineiro ter estado a ganhar e ter sofrido dois golos e o empate no fim, se teria sido tática, emocional ou física. Ele respondeu que "foi tudo isso, mais o Palmeiras. Outras coisas, não sei".

Recordei isso ouvindo as criticas à defesa do Sporting e individualidades como o Esgaio, após um 3-3 em que também esteve a ganhar. Sim, a defesa falhou mas foi também (principalmente, acrescento), o Braga, o Djaló a voar entrando perto do fim e outras coisas que só os desígnios do futebol sabem.

O Braga, em suma, soube ir reagindo bem aos danos que o jogo lhe foi causando. Do início, em que o lado mais tecnicista mas também mais "soft" do seu corredor central personificado em André Horta não conseguia travar o pisar em posse, conduzindo de área a área (queimando linhas de pressão) de Matheus Nunes, que, assim, comeu taticamente o meio-campo na primeira parte.

A reação bracarense, subindo a influência e posição no terreno de Musrati (deixando de estar perto dos centrais para subir e encurtar espaços aos médios leoninos antes deles chegarem perto da área), mudou a face periférica da pressão e inverteram o peso da pressão alta. O aumento de recuperações de bolas decisivas do Braga passou a superior a quantidade de passes desequilibradores do Sporting.

2 - O processo defensivo do Sporting é uma coisa. A sua defesa (três centrais e laterais que recuam para fazer linha de cinco, cobrindo em largura). é outra. O que falhou em Braga foi tudo isso e outras coisas que Vitinha (a amassar Gonçalo Inácio o jogo todo), a rapidez de execução de Banza e, no fim, o exorcismo de Djaló (que jogador, este miúdo!).

A questão tática, porém, no prisma defensivo, acho que está no meio-campo e na definição da posição 6 e o que se quer dela.

Com Morita, quase existe um duplo-pivô com Matheus Nunes. Jogam de perfil na saída (pivô-direito/pivô-esquerdo). Com Ugarte, há uma definição mais clara (resgaste da base Palhinha de ação) dessa posição como primado do equilíbrio agressivo defensivo, formando mais a junção nº 6 + nº 8 do que o duplo-pivô. O processo defensivo funciona melhor assim, embora Morita faça a bola circular com outra qualidade. Mas, sem ela, o antes sempre elogiado processo defensivo leonino sofre muito.

O 4x4x2 do Braga pode mudar em face de abrir com extremos (como acabou com Rodrigo Gomes e Djaló) ou com falsos-ala que se metem dentro (como começou com Horta e Iuri). A equipa precisa de regular a dicotomia pressão-posse do centro do meio-campo, mas, com as armas que tem, nunca deixará nenhum adversário defender descansado.

Negociemos o "sair a jogar"

O debate (e inquietação que provoca) regressou na primeira jornada. Penso no "sair a jogar" que, tantas vezes, em face da pressão adversária (e diferença da correlação de forças nesse duelo na primeira fase de construção) expõe as equipas ao erro de forma fatal. Sucedeu com o Marítimo no Dragão e, no fim, Vasco Seabra disse que a ideia não era inegociável e que, sim, em alguns desses casos, com a pressão alta inicial portista a fechar espaços de passe, a equipa devia ter batido longo.

Entre esta opção de tirar a bola do perigo (e metê-la na frente) e o "sair a jogar" apoiado que é a sua identidade, os jogadores vão por esta segunda via, a mais treinada e incutida para executarem. Falta, nestes casos, outra consciência no traço estratégico que tem de lhes ser incutido antes de cada jogo dessas características sufocantes.

Sem essa autorização tático-técnica (que não trai a identidade, mas dá-lhe outra cara de adaptação às circunstâncias) perde o jogo antes de o conseguir disputar em... especificidade. A identidade, no jogo (todos diferentes), não pode ser um valor absoluto. Chave: a intenção de um estilo de jogo nunca poderá contrariar o que o jogo em concreto exige porque tantas vezes as ideias que uma equipa traz são roubadas pelo adversário.

Modelos

Estoril: com Tiago Gouveia

Gostei de ver a estreia de Veríssimo no Estoril com um 4x3x3 feito de equilíbrios a meio-campo. Meteu o trinco Ndiaye muitas vezes entre centrais mas subindo Rosier a nº 8, soltou Geraldes no apoio ao ataque com João Carlos a nº 9 (fixo mas a pressionar) e alas bem abertos onde, com Arthur mais maduro, emergiu o talento de Tiago Gouveia (21 anos, emprestado pelo Benfica), agitador do flanco direito. Tem receção, controlo e velocidade com visão de passe. Uma nota atrevida num onze que se assumiu pelo rigor tático.

Táticas: inventar Vizela

Álvaro Pacheco voltou a ter de inventar no início da época. Desta vez, Tomás Silva saiu da zona central e foi lateral-direito, enquanto que no ataque, em 4x3x3 sem nº 9 de raiz, começou com Opeyemi (médio, 18 anos, dos sub-23), mas tornou-se mais imprevisível quando, na segunda parte, meteu Kiko Bondoso nesse espaço.

Mais do que a técnica com bola, destacou-se então na inteligência de movimentos e lançando ao mesmo tempo Nuno Moreira como extremo agarrou ofensivamente o jogo. Ganhou nessa dinâmica frente a um Rio Ave em construção mas que a partir duma estrutura a três revela boas ideias de jogo mas que ainda depende demais de Guga para ter meio-campo.

Kadile: travessura

Além da diabrura de Djaló no Braga, o resgate do estilo do velho extremo surgiu no flanco esquerdo do Famalicão com Kadile. Muito rápido, passa no um-para-um (metendo na frente e indo buscar), embora sendo destro depois custa-lhe acabar as jogadas com centro e busca furar para dentro. Com apenas 19 anos (emprestado pelo Rennes) ainda tem coisas truculentas mas vê-se que cresceu desde a época passada para ser maior aposta de Rui Pedro Silva e afirmar-se sempre na ousadia do ala veloz.