Duas soluções para a comunidade futebolista escolher: ninguém fica com o título ou ganham os dois?

Duas soluções para a comunidade futebolista escolher: ninguém fica com o título ou ganham os dois?
Luís Freitas Lobo

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É impossível prever o impacto desta paragem (competição e treinos em condições normais) terá no rendimento das equipas quando voltarem os jogos

1 - Campeonato parado e questão é mesmo se existirá a possibilidade de o disputar. É uma situação nunca imaginada. Temos de antecipar cenários para o caso (provável) de isso ser impossível, pelo menos na totalidade. Seja qual for a decisão, ela não irá ser a ideal. Essa não existe. O cenário do "play-off" (estudando como o disputar) pode ser uma solução, mas não sou adepto dessa fórmula mesmo nos campeonatos que já o adotam de origem. Nem acredito que haja tempo (adiar o Euro pode não resolver nada). Temos de esperar mais umas semanas (para ver a extensão da situação no tempo). Sem mais jogos, atribuir o título a quem está em primeiro justifica-se por um percurso longo já feito. Seja como for, tudo isto é uma lição de vida.

2 - A espécie futebolística vai sobreviver, mas acho que ficaremos melhor como humanidade (futebolística e não só). Não existir campeão seria como uma lição ainda maior para todos que têm tornado o futebol num terreno bélico com o "conceito avençado de ódio" como forma de vida. Talvez fizesse responsáveis perceber a insignificância que são perante a imensidão do drama que vivemos. O futebol é uma paixão que nos move, emociona, permite exageros saudáveis. Não pode ser o "investir contra o outro", calunia e desonestidade. Foi esse ambiente que me levou a deixar de fazer o que mais me apaixona: comentar jogos falando de futebol. Simplesmente porque não quero esse ambiente na minha vida. Não vale tudo.

Faço-vos um desafio: vamos supor que não há mesmo mais campeonato. Duas soluções para esta comunidade futebolista escolher: ninguém fica com o título ou ganham os dois. Qual solução acham que teria mais adeptos? Sinceramente, acho que a primeira. Porque não suportar ver o rival ganhar está a tornar-se mais forte do que ver ganhar a sua equipa. Se tal não significar o rival/inimigo perder que sabor tem essa vitória? Sei que tenho de ter cuidado com as generalizações (nem as quero fazer) mas é o ponto a que sinto ter chegado o nosso futebol.

3 - Adoro ver o Otávio a fintar, como vibro com os rasgos do Pizzi. Admiro as desmarcações do Vinícius como me empolgo com as arrancadas do Marega. Emociona-me ver a bancada dos adeptos do Vitória como ver o Braga a marcar um golaço em Glasgow e os jogadores festejarem com os poucos adeptos enlouquecidos num canto do estádio. É assim que vivo e sempre vivi o futebol. Quem me conhece, desde sempre, sabe que é assim. O meu clube é onde estão as minhas emoções, onde está o futebol que me faz sonhar. Preciso de todos para viver isso. Todos precisamos de todos para viver isso. E vamos todos ser campeões no fim!

"Pré-época" a meio da época?

É impossível prever o impacto desta paragem (competição e treinos em condições normais) terá no rendimento das equipas quando voltarem os jogos. Será necessário quase uma pequena pré-época a... meio da época para resgatar os índices de forma desportiva para este período. Será um desafio novo e interessante para os diferentes metodólogos de treino. Isto sim, é que é ser treinador no sentido do... treino mesmo e não apenas do jogo, porque este se desligou da integração de preparação durante muito tempo (o que nunca acontece em nenhum periodização metodológica, tática ou sistematizada). Será mais o tempo do tradicional treino analítico, como estruturas estanques separadas, ou rapidamente reativar o conjunto celular do jogo todo?

É isto (não a experiência de campo) que se deve colocar mais em questão como princípios de conhecimentos indispensáveis quando se fala nos níveis legais dos treinadores.

Um treinador não é só um "fazedor de equipas", sistemas táticos e substituições. É um criador de jogo pelo treino, físico, tático, mental. A forma desportiva global. É neste ponto em que a riqueza multidisciplinar das equipas técnicas também dita leis.

MODELOS

Jadson totalista
O Portimonense está a afundar-se na tabela mas um dos raros totalistas deste campeonato é o central Jadson. A razão está na qualidade madura do seu jogo, serenidade, sentido posicional, força com jogo aéreo (1,89m). Já podia (devia) ter saltado para palcos maiores. Aos 28 nos, ainda pode dar, mas entretanto os muitos que tinham certezas nos elogios que lhe faziam, passaram a ter duvidas. Compreendo a hesitação, mas num nível competitivo mais estimulante/exigente, continuaria a confiar nele.

Ristovsky ...e Amorim
Quando, contra o Aves, o Sporting ficou a jogar contra nove, Ruben Amorim tirou Ristovsky para, numa substituição natural, atacar mais com Jovane (extremo). O jogador não entendeu. Como estava do outro lado do campo, notou-se mais. Atravessou-o de braços abertos, insatisfeito. Amorim levantou-se com o "nível 4 de experiência". Esboçou até um sorriso. Um simples gesto que matou o assunto. Naquela altura era líder ainda meio jogador. Como quem diz que há pouco era ele a fazer e o valor disso, para que sabe lidar com tal sem autoritarismos para a bancada, é zero.

Ryan Gauld "cresceu"
A II Liga, com a recuperação do Feirense, resgatou emoção pela subida. O Nacional está a jogar bem em primeiro, mas noto oscilações no jogo do Farense, como vi no último com o Leixões. Quem não oscila, porém, no seu onze, é o outrora "Messi escocês". Ryan Gauld, que um dia o Sporting quis tirar do berço logo para o palco maior. O miúdo tem crescido entretanto. Não no tamanho (1,68m) mas, aos 24 anos, na maturidade do talento de fintas, visão e remate. Gostava de o ver num nível mais alto.