A vida dentro duma caixa

Luís Freitas Lobo

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PLANETA DO FUTEBOL - Um texto de opinião de Luís Freitas Lobo.

1 Gosto muito de futebol, mas, sinceramente, a última coisa de que tenho vontade neste momento é de andar aos pontapés em papel higiénico. Nem sequer cinco toques num rolo. A maioria das pessoas ainda não percebeu bem a dimensão do que (já) se está a passar. E do que está a chegar (a curto prazo).

Nunca tinha visto tanta vontade, em tanta gente, de ver decretado um estado de emergência. Como se isso fosse uma coisa passageira, que resolvesse por si só problemas, e o pior que nos pode acontecer é os dias em casa (que ao princípio até foram familiarmente engraçados) se transformem em mais umas semanas de tédio. Não, não será só isso.

O grave problema de saúde pública é também diretamente um terrível problema económico. Ambos são problemas vitais, ambos fazem definhar ("matam") casas e pessoas. Vamos, cada um de nós, levar um estouro monumental. E rapidamente.

2 Por isso, ouvir o primeiro- ministro, ponderado em tudo, resvalar para o populismo ao dizer que o futebol não é uma prioridade, é ignorar um dos maiores sectores de atividade do país com tudo que ele move em termos de diferentes áreas profissionais (de jogadores a funcionários de clubes, de todos seus agentes a diversas instituições e, claro, todos os profissionais de imprensa, jornais, tvs, etc).

O futebol não é, obviamente, uma "prioridade" sobre saber quem é o campeão ou como se pode cumprir o calendário. São debates inócuos. O primeiro, porque isso não importa nada com uma pandemia nas ruas. O segundo, porque ninguém pode imaginar quanto isto vai demorar. E, sem uma proeza científica-médica dum medicamento, vacina, vai demorar mesmo muito.

Não basta fechar a porta e ficar em casa com o "remédio porta fechada" até essa vida dentro de uma "caixa" nos estrangular, através da saúde ou da economia. O futebol não é prioridade, mas a vida financeira das pessoas que vivem das várias áreas de atividade que emanam dele são.

3 A prioridade é a vida. Em toda a sua dimensão. Este é um jogo em que só nos dão 90 minutos para ganhar. Não pensem que nos dão segunda mão, prolongamento e penáltis. A sensação que tenho é que, ao andarem de chinelos pela casa, as pessoas acham que isto um campeonato com muitas jornadas (semanas) para o resolver. Não é.

É "taticamente" um jogo de sentido único. Em breve vamo-nos sentir como aquelas equipas pequenas a defender todas dentro da área em desespero perante o massacre do adversário mais forte a cruzar sucessivamente bolas para cima da nossa baliza. Já sabem como costumam acabar esses jogos. Não somos todos "Simeones", nem a nossa casa (resistência de vida, pela saúde e economia) é o At. Madrid.

Que sentir num túnel?

Uma história de que lembrei a propósito destes tempos é sobre um treinador que não conseguia dormir à noite. Sonhava sempre que estava no banco a perder o jogo e acordava todo suado. Fala-se na importância do psicólogo numa equipa. Pode ser, mas quando o treinador, que é quem a conhece melhor (mais o mundo dos jogadores) não consegue ser esse psicólogo, ela está condenada.
Billardo nunca foi a favor mas uma vez aceitou, no Estudiantes. Chegado o dia do dérbi contra o Racing, o psicólogo teve muito trabalho. Foi então que, antes de a equipa entrar, foi espreitar o ambiente. Dum lado, uns a apoiar enlouquecidos. Do outro, a insultar pendurados na rede, com polícia a distribuir bastonada. Assustado, mas tentando serenar, voltou e disse: "Tranquilos. Se ganharmos, matam-nos a todos. Se perdemos, também!". Foi logo despedido no túnel e Billardo assumiu então a frente. Mal pôs o nariz de fora foi insultado ("hijo de puta!") e levou uma cuspidela na cara. Porque me lembrei desta história? Porque, fechado em casa, sinto-me exatamente como se estivesse nesse túnel.