Verdade televisiva

José Manuel Ribeiro

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As "pessoas de bem" e as repetições dos lances polémicos na Benfica TV

"Somos pessoas de bem", dizia anteontem Bruno de Carvalho, mas, em geral, as pessoas de bem do futebol não são as pessoas de bem tradicionais. A essas costumam repugnar, por exemplo, os hábitos tão futebolísticos do autoelogio, das acusações sem a mínima prova ou da exigência de direitos próprios que ainda ontem se recusava aos outros. Se eu escrevesse aqui, todos os dias, que sou o melhor diretor de jornal do planeta, que tive ideias geniais de que nunca a humanidade se lembrou e que a minha gestão do orçamento devia ser ensinada ao Mário Centeno, seria imediatamente uma pessoa ridícula, nunca uma pessoa de bem. No futebol, a perceção dilui-se e o tique passa quase despercebido, mas a presunção, o egoísmo e a arbitrariedade estão lá na mesma. Esta época, para variar, nem Benfica, nem FC Porto, nem Sporting têm moral para condenar os ataques uns dos outros à arbitragem, ou para ignorar os erros de que todos, mais ou menos, foram vítimas. A indignação do Benfica vale tanto como valeram as indignações do FC Porto e do Sporting; e as distorções do Benfica, como o regresso do Apito Dourado ou a tese de que os árbitros estão aterrorizados com os SuperDragões (que eram pessoas de bem até há um mês, pelos vistos), também valem tanto como as distorções da realidade que FC Porto e Sporting tentaram. O complicado é quando o Benfica se reclama uma pessoa de bem (mais de bem que qualquer outra), por oposição às pessoas de mal que vão atrás. Porque uma pessoa de bem faria questão de repetir, no canal televisivo que é seu e que transmite em exclusivo os seus jogos em casa, todas as jogadas duvidosas e não apenas as que parecem favorecê-lo, como tem acontecido ultimamente com uma desfaçatez notável. Uma pessoa de bem também não negará que isto acontece.