Uma medalha para o herói Valdemar Duarte

Uma medalha para o herói Valdemar Duarte

ERC, Comissão da Carteira, Tribunal Arbitral, Benfica e BTV acabam de revolucionar o jornalismo em Portugal

Lembram-se de Valdemar Duarte, jornalista encarteirado, que relatou na BTV um jogo entre o Benfica e "a corja do FC Porto"? Que tinha relutância em enunciar o onze portista porque "são bandidos que estão dentro do campo"? A quem o diretor-geral do FC Porto mete "nojo" ("Dizer que é um cão é ofender a raça canina")? Que usou termos como "corja de bandidagem" e "gentalha" para designar um clube numa peça jornalística? Lembram-se dele? Está fino como o alho, impecável.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social decidiu logo que o assunto não lhe dizia respeito e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista fez cara feia ao ilustre sr. Valdemar e abanou-lhe o indicador à frente do nariz. O Conselho de Disciplina da FPF tinha multado o Benfica em 34 mil euros, no equívoco de que regulamentar que "o clube é considerado responsável pelos comportamentos que venham a ser divulgados pela sua imprensa privada" significa que o clube é considerado responsável pelos comportamentos que venham a ser divulgados pela sua imprensa privada. O Tribunal Arbitral do Desporto explicou agora, pacientemente, que o português é uma língua complicada, e mandou a FPF de volta para a Cidade do Futebol com cinco mil euros de custos para pagar.

Entretanto, como o Benfica e a BTV ficaram tão, tão incomodados com as palavras tão, tão repudiadas do seu "prestador de serviços", ele continua lá a trabalhar, aplicando a sua impecável ética profissional e o seu refinadíssimo código deontológico nos mais diversos conteúdos "jornalísticos". Se algum dia a Imprensa lisboeta tivesse a lealdade de discutir este assunto como faria se Valdemar Duarte fizesse o mesmo com outras cores, a resposta imediata seriam os "falsos equivalentes", para usar uma figura da lógica.

Mas não há exemplos comparáveis, nem os canais dos clubes são todos iguais no comportamento e, mesmo que fossem, nada justificaria que uma violação flagrante dos deveres da Imprensa e dos jornalistas passasse incólume. A Imprensa merece o respeito de ser devidamente regulada: a única coisa que nos separa da bicharada das notícias falsas é podermos dizer que somos escrutinados. Queremos ser mais e melhor escrutinados, e queremos que se saiba disso. O que a ERC e a Comissão da Carteira fizeram foi enterrar esse escrutínio e misturar-nos com o lodo. Podiam ter traçado um limite e, em vez disso, abençoaram-no. O Tribunal Arbitral também fica bem na fotografia. A Secretaria de Estado do Desporto devia pedir-lhe um parecer, um dia destes, sobre a melhor forma de combater o flagelo - como é que eles dizem? - da "violência". Já sabemos que não é obrigando os canais dos clubes a calar o ódio verrinoso que chega a encher 80% de alguns alinhamentos.