Uma intrujice de 84 minutos

José Manuel Ribeiro

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A boa época de Marco Silva esteve prestes a ser levada pelo vento, como se não tivesse existido

A seis minutos dos noventa, contava-se uma história muito mentirosa no Jamor. Não daquele jogo em particular, porque o Braga teria ganho bem, mas do que fora a labuta de Marco Silva durante a época. Aqueles 360 segundos salvaram o treinador do Sporting das leituras cabeça de vento que hoje se faria (talvez até entre alguns dos sportinguistas que o defenderam) e também do embuste que seriam as letras gordas da temporada: terceiro lugar no campeonato, eliminação na primeira fase da Liga dos Campeões e a derrota numa final da Taça em que vestia a cútis de favorito. Nada do que Marco Silva fez nas entrelinhas constaria dos registos. Mas, em seis minutos, essa certeza que todos tínhamos do bom trabalho de Marco, e que se arriscava a ser levada pelo vento, materializou-se, finalmente, num feito concreto e palpável: uma final da Taça ganha só com dez jogadores e extirpada, à força de motivação e também de tática, em cima dos ponteiros do relógio, como se tivesse sido pensada por um roteirista de telenovelas. Até ontem, um crítico mal-intencionado poderia, sem dificuldades, agarrar-se às folhas de cálculo e defender que era subjetivo valorizar um treinador que só fizera os mínimos; agora, há uma Taça tão entranhada em Marco Silva que nem com martelo e escopro será possível separá-los. É legítimo que Bruno de Carvalho entenda que ficaram por cumprir objetivos fundamentais, mas explicar um despedimento, depois deste domingo, vale um Nobel da literatura.