Uma cena da vida real

José Manuel Ribeiro

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O problema não é que uma imagem valha por mil palavras; é que, em cada mil palavras, 999 sejam escusadas

Com ou sem cuspo, no futebol discute-se e insulta-se. De pouco adianta pormos cara de diáconos Remédios, no dia a seguir, para ralhar aos participantes (as televisões pareciam o Concílio Vaticano II ontem e anteontem), até por nenhum de nós estar livre de perder o juízo por um minuto ou dois. Mas, se nem sempre é possível impedir que uma discussão comece, porque se está nervoso ou porque se tem "a doença do pavio curto", não há razão para que um adulto racional decida prolongar uma cena triste no dia seguinte ou dois dias depois. Nenhum grande bovino obrigou Bruno de Carvalho, já sentado ao balcão da sala de Imprensa, a comparar o presidente do Arouca a um búfalo ou a considerá-lo tão digno de atenção como um rebanho de ovelhas. Jorge Jesus quase acertava quando disse que uma imagem vale por mil palavras. O problema de Bruno de Carvalho, enquanto presidente de um gigante como o Sporting, é que, em cada mil palavras que pronuncia, 999 são escusadas, não originam nada que seja necessário nem positivo. Não têm nenhuma utilidade que não seja satisfazer uma ânsia qualquer que só lhe diz respeito a ele. Estas últimas mil palavras tiveram a arte de produzir outras mil, ontem publicadas na página do Facebook do Arouca, ainda mais lastimáveis, numa espiral de inutilidades que já não se explicam com feitios, nem humores, nem ressacas, nem doenças do pavio curto. A única vantagem destes últimos dois dias foi mostrar-nos que aquelas imagens não foram lapsos, nem momentos de descontrolo.