Um goleador de pão e água

José Manuel Ribeiro

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Descontados os dribles, qual será o melhor companheiro nas aflições: Jonas ou Mitroglou?

J á vai sendo tempo de atualizar a frase feita: o futebol é um desporto de violinos e no fim ganham os bisturis. Mitroglou não é um violino. Tem menos golos do que Jonas, dá muito menos curvas, não dribla, raramente passa pela cabeça de alguém atribuir-lhe nota artística, mas, ao fim desta época e meia, qual deles é preferível ter ao lado numa aflição? Provavelmente, aquele que marca ao FC Porto, ao Sporting (matou o jogo do título, há um ano) e que costuma aparecer mais vezes quando as batalhas são duras, os adversários feios, a chuva fria, a relva rala e o futebol desconfortável. Mitroglou complica o trabalho de avaliar Rui Vitória (como Jonas, aliás), porque pede pouco à equipa. Duas ou três bolas alcançáveis, na área de preferência: ou seja, o resumo do Braga-Benfica de ontem, que talvez tenda a ser visto como uma repetição aguada do Benfica-Borússia Dortmund e pela mesma ilusão de ótica. O primeiro problema não está no muito ou pouco que se faz sofrer o Benfica; está no pouquíssimo que o Benfica precisa de fazer sofrer o adversário. Mitroglou é um exemplar puro do avançado a pão e água, que nos descalibra as estatísticas e as folhas de cálculo. No corpo a corpo do título, talvez desconte um terço nos ataques, assistências e cruzamentos que o Benfica terá de fazer, relativamente ao FC Porto. Pelo menos ao FC Porto pré-Soares.