Rússia"18 valeu pelo enxovalho

Do Mundial, escolho a censura planetária às fitas de Neymar. A batota é inevitável; que sejamos todos cúmplices, nem tanto

O presidente da FIFA viu, na Rússia, o melhor Mundial de todos os tempos. Consigo arranjar maneira de o perceber. Uma das hipotéticas evoluções foi a redução do desnível entre seleções. Se houve coitadinhos, foram menos do que o habitual (talvez o Panamá, eventualmente a Arábia Saudita) e outros, como o Japão ou Marrocos, deram grandes saltos. Visto que não estive lá, não sei avaliar o catering, nem os salamaleques, e suspeito que devem ter pesado na avaliação de Infantino, para além do autoelogio e da reverência obrigatória ao patrocinador Vladimir Putin. O melhor, e mais oportuno, do Mundial foi a sova (quase totalmente figurada, até no relvado) que Neymar levou do planeta inteiro, por ter andado a rebolar na relva muito mais do que é aconselhável. Escrevo isto a morder a língua, porque concordo com o meu amigo Álvaro Magalhães - o futebol não é catequese, nem escola de etiqueta -, mas estamos a ficar anestesiados (ou cúmplices) a todas as vigarices, pulhices e sonsices, fora e dentro do relvado. Simular agressões ou praticar antijogo não terá a gravidade de subornar jogadores, manipular classificações de árbitros, ou de quase tudo o que Bruno de Carvalho faz, mas é transmitido em grandes ecrãs, em alta resolução e em câmara lenta, dúzias de vezes por semana, sem nenhum verdadeiro tipo de crítica ou de repressão. Funciona como uma telescola para os cadetes e adeptos. Nos dois últimos campeonatos portugueses, vimos brilhantes exemplos dessa batota. Até por isso, o enxovalho planetário a Neymar fez bem ao estômago.