Os valores são para os palermas

Os sportinguistas, e mais ainda o presidente da AG, conheciam bem a pessoa que revalidaram em fevereiro

O Bruno de Carvalho que os sportinguistas assobiaram anteontem é exatamente o mesmo de há dois meses, para não dizer que é o mesmo de há cinco anos. A diferença, se houver uma, está nos stripteases psiquiátricos que ele, entretanto, ganhou o hábito de fazer. Quando lhe deram carta-branca, na última assembleia, os sócios conheciam o presidente por fora e por dentro. Já o tinham visto dizer tudo e fazer tudo, no mínimo duas vezes, incluindo o raspanete público aos jogadores que, agora, se tornou intolerável. Conheciam-lhe pensamentos íntimos, leram-no chorar de solidão nas estradas transmontanas e viram-no dar saltos e fazer caretas na Sporting TV. Registámos um casamento, uma lipoaspiração, duas mulheres, as filhas, outra filha, os pais (sabemos a idade do pai), conhecemos o vocabulário inteiro do tio-avô, todos os detalhes do romance de escritório e talvez só o clima nos tenha poupado ao vídeo do último parto.

Nenhuma parcela da alma de Bruno de Carvalho está por escancarar, há muito tempo. Se alguma coisa mudou, para minha própria surpresa, foi ter desenvolvido genuína pena daquela pessoa que parece compelida por uma força superior a ostentar todas as misérias e fraquezas humanas. Os sócios, e muito mais o presidente da Assembleia Geral do Sporting, estavam ao corrente de quem era Bruno nas últimas eleições e melhor ainda há dois meses, quando o revalidaram por aclamação. Esta não é uma história sobre futebol: é uma história sobre os valores e princípios que, em fevereiro, tantos sportinguistas voltaram a achar dispensáveis. Como outros fariam e fazem, para desgraça de todos.