Os direitos de TV num número de ilusionismo

Os direitos de TV num número de ilusionismo
José Manuel Ribeiro

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Enquanto punha os clubes a espumar contra as alterações ao campeonato, a Liga sacava-lhes os direitos de transmissão

A centralização dos direitos de transmissão televisiva do futebol não é um bicho-de-sete-cabeças. Na Europa, só há negociações individuais em Portugal, Espanha e Ucrânia e ninguém morreu, em nenhuma das fações. Mas é uma discussão importante, que consiste na passagem de um bem patrimonial individual que pode atingir as dezenas de milhões de euros anuais para a posse do coletivo.

Em Itália, o debate durou uma década antes de haver um consenso; em Espanha, discute-se há anos, de vez em quando até com ameaças de insurreições contra Real Madrid e Barcelona. Em Portugal, o presidente da Liga tentou reduzir tudo a uma borracha e uma manobra de diversão: enquanto o país e os associados de LPFP se abespinhavam com as mudanças radicais propostas para o formato do campeonato - que Figueiredo promoveu durante duas semanas, instrumentalizando jornais, tevês e jornalistas - seguia por baixo da mesa, na Assembleia Geral de hoje, um novo Regulamento de Competições sem o ponto 2 do artigo 68, segundo o qual "os clubes detêm individualmente a titularidade dos direitos de transmissão televisiva dos jogos e resumos".

A artimanha encerra vários juízos, dos quais o mais interessante será o que o presidente da Liga faz dos seus próprios associados, reduzidos à condição de pataratas distraídos que nem sequer se dariam ao trabalho de ler a papelada antes de a votar. Há vinte anos que não ouvia semelhante história, pelo menos entre gente crescida.