O tom de voz de quem perde

José Manuel Ribeiro

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Bruno de Carvalho está a perder. Falar como se estivesse a ganhar é um risco

Bruno de Carvalho em pose de Estado. Bruno de Carvalho magnânimo e comedido, pedindo até desculpas e jurando que as pedia a sério, ou seja, assumindo genuinamente que a palavra, dita por ele, soa a tudo menos isso. "Como presidente, estou a saudar todos aqueles que querem viver nesta democracia que é o Sporting e que querem mostrar as suas ideias." Nas últimas semanas, aos sportinguistas que quiseram mostrar as ideias vinha chamando "abutres", "híbridos cobardes", "papagaios" e "parasitas". Ontem, na reação programada à candidatura presidencial de Pedro Madeira Rodrigues, transmitida em direto pela Sporting TV (!), desapareceu a fera: "Não tenham receio, candidatem-se." A metamorfose é surpreendente sem surpreender. Surpreende que Bruno tenha sido capaz de reprimir o impulso de responder às críticas que Madeira Rodrigues lhe fizera; não surpreende que tenha intuído os riscos da pose despótica que resultava dos comentários anteriores, em especial quando assumida por um presidente que se esvaziou de argumentos. Tinha dois: a atitude intimidatória para com os adversários e os créditos de ter posto as contas em ordem. Quase quatro anos depois, os adversários não estão intimidados e o Sporting gasta em salários praticamente o mesmo que Benfica e FC Porto, a oito pontos do primeiro lugar e acumulando pequenas derrotas colaterais, como a do caso Doyen. Os sportinguistas tenderão, talvez, a querer continuar ferozes, em vez de regressarem ao tempo das tias e dos tios bem-educados e mansos, mas há vencedores e perdedores. E um tom de voz diferente para cada um deles.