O mundo depois do rating da velhice

O mundo depois do rating da velhice
José Manuel Ribeiro

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As vidas entraram oficialmente nas cotações bolsistas. Era só uma questão de tempo

Oscar Haro, o espanhol que dirige a segunda equipa da Honda no mundial de MotoGP, teve de autorizar os médicos a deixarem o pai sufocar porque alguém mais jovem (mais rentável? melhor cotado em bolsa?) precisava do ventilador que mantinha o senhor vivo. Vários governos, a começar pelo inglês, fizeram ponderações sobre o que seria um número aceitável de baixas da pandemia. Ambos os casos são resultado da infantilidade económico-social dos últimos 30 anos: sistemas de saúde públicos (que estão fadados a ser a salvação das pessoas em momentos como este) depauperados e atacados por sucessivas gestões políticas hostis e, claro, a banalização do economês, ou seja, da visão burocrata do mundo que consegue atribuir, ao cêntimo, o valor de um velho ou de um jovem.

Não estranharia se amanhã me aparecer no telejornal um senhor de gravata a explicar-me que este "downsizing" [desbaste em economês] nos "stocks" [provisões] de reformados permitirá grandes "savings" [poupanças] à Segurança Social. Pensando bem, talvez não, porque a Segurança Social também é uma grande maçada para os senhores das folhas de cálculo, como tudo que não se pode vender com lucro. Na verdade, tudo o que nos pode ajudar numa catástrofe como a atual foi sendo de alguma forma combatido pela generalidade dos governos nas últimas três décadas, em vários países. Depois de tanto tempo a fomentar o "indivíduo", a desregulação, a boçalidade e o egoísmo, talvez seja descabido apelar-se às "comunidades", na melhor das hipóteses, talvez se possa apelar às "tribos" se a ideia for apressar o "downsizing" dos "stocks" de reformados e poupar mais umas massas às finanças públicas.

Agora sim, quando até conseguimos dizer que uns mortos são mais convenientes do que outros, batemos no fundo.

NÃO SAIA DE CASA, LEIA O JOGO NO E-PAPER. CUIDE DE SI, CUIDE DE TODOS