O mistério do triângulo invertido

O mistério do triângulo invertido
José Manuel Ribeiro

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O mesmo sistema muda de face quando interpretado por um médio com discernimento e sem medo do banco

Entre as críticas que são feitas a Paulo Fonseca, treinador do FC Porto, há umas mais injustas do que as outras. A mais insípida talvez seja, também, a mais corrente: o triângulo invertido, isto é, dois médios recuados e apenas um numa linha mais avançada.

A injustiça começa logo pelo rótulo: se implica algum tipo de recuo, então tem de ser defensiva. Inúmeras equipas goleadoras e campeãs por esses tempos fora, usando o duplo pivô ou algum tipo de colaboração dos dois médios perfilados (o Bayern de Munique de Heynckes, o Real Madrid de Mourinho, para citar exemplos recentes), desmontam a tese facilmente.

Por outro lado, já se tinha percebido, em 2012/13, que o grande potencial da atual equipa residia nos dois laterais, Danilo e Alex Sandro. Procurar uma mecanização capaz de os libertar para o ataque nunca seria uma ideia descabida - e o duplo pivô tradicional (não é o caso) servia para isso, por repartir o território horizontalmente. Depois de muitas atribulações, à procura do equilíbrio, a chegada de Carlos Eduardo ao onze trouxe, no FC Porto-Braga, um futebol que foi confundido com a renúncia de Fonseca à ideia inicial, tese que ele combateu e, se calhar, com razão.

O mesmo sistema adquire faces muito diferentes consoante é interpretado pelo constrangimento de Defour e Herrera, preocupados só em obedecer às instruções, ou pela autonomia e discernimento de Lucho González. E também faz muita diferença trocar, no lugar mais à frente, um médio de passe (Lucho) por um médio de posse (Carlos Eduardo), até com uma explicação pela mudança tardia: o jogador projetado de início para essa posição (Quintero) ainda não pegou.