O descomplicador de Jorge Jesus

José Manuel Ribeiro

Tópicos

Dizem que o treinador do Sporting não tem jeito para as palavras, mas ninguém abrevia o futebol como ele

A linguística é o calcanhar de D"Artagnan de Jorge Jesus, como toda a gente sabe ou julga saber, mas na tática das palavras há mais do que gramática e semântica. Há, por exemplo, o talento para comprimir fenómenos complexos ou imateriais numa mão-cheia de vocábulos, que é precisamente o que Jesus faz ao futebol dentro do relvado, gastando ainda menos papel e tinta do que o poeta mais económico. Aquilo que, para a maioria dos outros treinadores, é ciência de foguetões, intraduzível numa banal conferência de Imprensa, para ele reduz-se a três vetores: quantidade (o número de jogadores que consegue envolver no ataque), velocidade e estampa física em zonas essenciais do campo. E o verdadeiro segredo: um aparelho defensivo de alta precisão que autoriza praticamente qualquer leviandade lá na frente contra adversários abaixo de determinado calibre. No final do Crystal Palace-Sporting (0-2), o treinador dos ingleses, Alan Pardew, disse tudo: "Uma equipa típica de Jesus." Não é que o jogo de ontem tenha sido devastador, mas já foi o futebol de Jesus, apesar dos poucos treinos. Não será a garantia de coisa nenhuma, como não era no Benfica, mas a equipa sabe, pelo menos, o que quer e o que tem de fazer com uma clareza, se calhar, inatingível por qualquer outra na I Liga. A descomplicar o futebol, a olhar para ele e ver só o que é importante, ninguém bate Jesus.