"Memento mori", míster Rui Vitória

"Memento mori", míster Rui Vitória
José Manuel Ribeiro

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Comprar a tese de que defendeu bem, como os comentadores adeptos, será o maior erro do Benfica

"Memento mori" era a frase, em latim, que, enquanto lhes segurava a coroa de louros acima da calva, um escravo sussurrava ao ouvido dos generais romanos recebidos em apoteose quando voltavam de uma guerra vencida: "Lembra-te de que és mortal." Foi o que me veio ao pensamento ontem, no fim da taquicardia com o Borússia, ao ouvir o comentador da Sport TV concluir que o Benfica tinha defendido bem.

Não, o Benfica não defendeu bem e deve reclamar o direito a que lho digam com franqueza, por muitas vantagens que tenha embrulhar a mais insípida batalha numa capa de glória, para efeitos de narcotização coletiva. E escrevo-o sem tirar um grama ao mérito de um jogo ganho ao Borússia de Dortmund; não é o conteúdo, é a forma. Quatro bolas de golo cristalinas, entre meia dúzia de outras aflições, um penálti e o guarda-redes Ederson posto na estratosfera não existem quando se defende bem. Isto é importante porque não haverá dois "resultados ridículos", como lhe chamou o treinador do Borússia: se o Benfica conseguiu interromper uma série de 18 jogos dos alemães sempre a marcar não foi porque tenha, de facto, encontrado maneira de os segurar. Encontrou maneira de lhes fazer um golo, que também é importante e que está no genoma da equipa. Na Alemanha, será preciso rentabilizá-lo, fazendo outros e/ou calafetando as frinchas (um eufemismo) por onde o Dortmund, e o ponta de lança Aubameyang, tiveram via direta às barbas de Ederson. "Memento mori", Benfica. Não tens de quê.