Jornalistas sem aspas

As notícias de transferências são inventadas? Os jornalistas "desportivos" são uns rapazolas? Os jornais de junho, julho e agosto são obras de ficção?

Vou falar-vos de um tema proibido, por culpa da minha mulher (como a fechadura da marquise ou os meus calções que teimam em aparecer nas gavetas do meu filho). Foi ela que me trouxe um texto de um blogue, aparentemente divulgado pelo Sapo, com o título ""Jornalismo" de investigação", assim mesmo, com o jornalismo entre aspas. O autor, que eu educadamente desconheço, falava de uma "subespécie" de jornalista "que nem precisa de sair da redação para produzir centenas e centenas de "notícias"" (nova dose de aspas em "notícias"). Referia-se aos jornalistas "desportivos", quando na realidade se queria referir a outra criatura também inexistente chamada jornalista "futebolístico". O que incomoda o cavalheiro são as "centenas e centenas" de notícias de transferências de jogadores, na opinião dele, inventadas. Os comentários dos leitores encheram-se de aplausos e um deles até contava que, por essas e outras, só via a Benfica TV.

Ponto importante: o jornalista não tem porque se queixar. Somos nós que fazemos os jornais e os espaços noticiosos. A mensagem que passamos, verdadeira ou falsa, é sempre da nossa responsabilidade, mesmo aceitando que as redes sociais (e os blogues) tornam muito fácil deturpar o nosso trabalho. Mas não vou para o inferno dos jornalistas (acho eu, embora sem nenhuma fonte que o confirme) se explicar algumas coisas. Primeiro: todas as redações que conheci eram compostas por profissionais adultos. Nunca vi nenhuma composta pelos rapazolas descritos no blogue. Segundo: nunca vi um jornalista que goste de falhar uma notícia, nem vi jornalistas que falhem notícias serem acolhidos com champanhe e bolo, sobretudo por gajos simpáticos como eu, que sou diretor e falho todas as notícias que eles falharem. Terceiro: numa transferência de futebol, todos os intervenientes têm, num momento ou outro, razão para mentirem. O jogador por medo que falhe; o empresário por medo do clube comprador; o clube comprador por medo que o preço inflacione ou que a concorrência se aperceba.

Quarto: como se viu recentemente com o caso Perin no Benfica, os clubes têm todo o interesse em desmentir as transferências até ao último instante. E se elas falharem, mais interesse têm ainda. Os clubes mentem; os clubes mentem; os clubes mentem. Quinto: para preencher uma vaga no plantel, é preciso ter quatro ou cinco alternativas, saber os preços que os clubes pedem e pedir opiniões a pessoas próximas. As informações multiplicam-se e, sim, mais do que devia, acontece que um jornalista seja enganado por um empresário ou por um jogador que queiram agarrar aquele fiozinho de esperança. Sexto: uma boa parte das notícias de transferências vêm da Imprensa estrangeira. Se não puder confirmá-las ou desmenti-las de forma segura, o jornalista não deve escondê-las do leitor, ainda que haja uma diferença entre "o jogador X interessa ao clube Y" ou "o jornal W diz que o jogador X interessa ao clube Y". Dou um exemplo que vale por dois: o FC Porto desmentiu-me oficialmente qualquer interesse em Luis Díaz, que agora veste a camisola n.º 7.

Sétimo: o problema complica-se quando passamos a ter programas televisivos diários, especificamente, para noticiar transferências - sobretudo quando nesses programas diários, já de si complexos em termos de matéria-prima, as notícias são dadas por fulanos que não são jornalistas, como a superestrela Rui Pedro Brás na TVI. Do que ele faz ou diz, a classe dos jornalistas não tem culpa nenhuma, tirando os que lhe deram esse trabalho e essa entidade mística chamada Comissão da Carteira. Oitavo: o digital também leva a precipitações, mas é recente; vamos caminhando e aprendendo. Nono: cada órgão sabe de si e há diferenças entre eles. Mas é escusado reivindicar que sou mais rigoroso do que o outro: ou consegui passar essa mensagem aos leitores ou não.

Este relambório todo, no fundo, para dizer que o jornalismo tende sempre a ser um reflexo da realidade, mesmo quando está adulterado, desde que o saibamos ler. E o mundo das transferências é este, feito de múltiplos avanços e recuos, sondagens e desistências, simulações e mentiras, artifícios e muita desonestidade. Se não é a imagem que passa das dezenas de capas e centenas de nomes atirados ao público todos os anos, a culpa é nossa, dos jornalistas. Mas tirem lá as aspas.