TEORIAS DO CAOS - Atacar os jogadores, diz o capitão do Burnley, afasta o foco dos "trabalhadores-chave que estão a colocar-se em risco para ajudar outros".
Nesta última semana, os jogadores profissionais de futebol foram os vilões em Inglaterra e Espanha. Governos e comentadores apontaram-lhes o dedo, quase os obrigando a exterminarem eles próprios o vírus, se não ao pontapé, pelo menos por transferência bancária.
Ben Mee, capitão do Burnley, assinou um artigo no "The Guardian" a lembrar que a maior parte dos futebolistas britânicos conhece muito bem o NHS (sistema nacional de saúde) por não terem nascido "com uma colher de prata na boca". Atacar os jogadores, diz, afasta o foco dos "trabalhadores-chave que estão a colocar-se em risco para ajudar outros".
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No "El País", Jorge Valdano teve de sair em defesa da sua antiga profissão, lembrando que o futebol "é o único desporto que os pobres arrebataram aos ricos". "Na verdade, são cidadãos privilegiados que, quando a sociedade reclama, não esquecem as suas origens." Com o título "Não disparem contra o pianista", o colunista do lado, Santiago Segurola, defende uma ideia parecida. Desde quando está o futebol no centro da tragédia? "A estes infames de agora atribui-se-lhes um sem fim de qualidades admiráveis quando convém." Na base das ondas de indignação, estiveram, no caso espanhol, as negociações para cortes salariais que nem foram especialmente agrestes, e o papel de bode expiatório que o governo britânico e um par de deputados quiseram atribuir aos futebolistas, quando confrontados com o recurso de alguns clubes milionários à figura do "lay-off", sem cortarem nos salários das estrelas.
Fora clubes como Tottenham e Newcastle (o Liverpool também, mas recuou) que puseram os funcionários em "lay-off" para pouparem três ou quatro milhões dos cem que tiveram de lucro no último exercício, em geral, o papel dos patrões e jogadores durante a pandemia foi muito positivo e não justifica de todo estes ataques. Como diz Ben Mee, os futebolistas fizeram bem a parte deles, talvez melhor do que outras áreas da sociedade. Uma pequena fatia ganha muito mais dinheiro do que seria razoável, mas eles têm tanta culpa disso como os esturjões são responsáveis pelo preço do caviar. Em geral, aceitaram os cortes ou até se mantiveram em relativo silêncio perante situações mais penosas, como o "lay-off" do Belenenses, por exemplo.
Como explicar que a paga seja a crítica ou, no caso português, o "pacto" entre os clubes para combinar a segregação dos jogadores que rescindam contratos por justa causa neste período? Já com alguns meses de salários em atraso sem relação com a pandemia, o Desportivo das Aves sai a ganhar com o crime, apesar de ter um acionista privado que foge às suas obrigações. Fechar-lhes a porta até pode ser racional: provavelmente, o alvo do pacto não são os jogadores, mas antes os clubes menos escrupulosos que se poderiam aproveitar da situação. Não muda os factos. No fim, é sempre uma decisão cega e uma manobra de intimidação à parte mais fraca.
Mas são os jogadores a parte imaculada do futebol? Ou, como lhes chama o meu amigo Luís Freitas Lobo, "o melhor que o jogo tem"? Talvez não. Os maiores culpados da pandemia virão do futuro. Os segundos maiores virão do passado. As decisões mais disruptivas e transformadoras do futebol, nos últimos 30 anos, partiram dos jogadores. Foi com Bosman que começou a desregulação do futebol, ao obrigar à aplicação na EU da livre circulação de trabalhadores, e foi com a FIFPro, o grande sindicato mundial, que o jogo viveu, desde então, os maiores riscos de agravar essa desregulação nos tribunais, como a famosa Lei Webster que permite a saída a custo zero de jogadores sob contrato. O melhor que o jogo tem? Diria que é o público, a quem ninguém pede a opinião (conforme escreve Rui Calafate no "Record" de ontem), apesar de ter dado ao futebol a dimensão que ele tem e quase todos os cêntimos que ele esbanja.
