Jesus e a raça superior da bola

José Manuel Ribeiro

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A função dos "atrasados mensais" não é ter razão: é criar razão. Até os pobres futexcluídos conseguem

Jorge Jesus chamou "atrasados mensais" a quem o censurou por não ter discutido a Liga dos Campeões até ao último metro. A minha interpretação do trocadilho é esta: mais ou menos uma vez por mês, algum treinador faz questão de nos lembrar de como é inferior a raça dos que, não tendo a pureza genética necessária para jogar, insistem em meter nos mistérios da bola os seus gémeos atrofiados e os seus narizes intocados pelo fedor do balneário. Podíamos misturar muitos assuntos num só; falar do que cada profissão sabe das outras; da complexidade que o futebol tem ou não; do conhecimento que se traz de outras modalidades; do trabalho específico de um comentador; ou do muito que se aprende (é verdade) nos livros e com a simples observação. Mas a lição de hoje, dedicada a Jorge Jesus e aos outros autoproclamados representantes da raça superior, não entra por aí. A função dos críticos, numa sociedade saudável, não é ter razão; é criar razão. Levantar discussões. Debater. Não ganha sempre quem está certo, infelizmente, e neste tempo do Facebook e do Twitter cada vez a razão importa menos. O crítico está a ser trocado pelo militante e as discussões trocadas pela demagogia reles. Em todos os colóquios e conferências sobre comunicação, a conversa é sempre a mesma: "Já ninguém ouve o outro lado". E ouvir ou ler os nossos "atrasados mensais", em vez dos nossos fanáticos pessoais, é a única forma de irmos sabendo se ainda temos razão ou se, como costumo dizer, não a teremos perdido pelo caminho. Nunca precisámos tanto dos críticos. Jesus acima de todos, parece-me.