Voz da maioria

A máquina de comunicação do Benfica está há dois dias a exibir os músculos

Não sei se há jornalismo desportivo. A expressão faz-me sempre pensar num porreiraço de mangas arregaçadas e fraldas de fora. Mas sei que no futebol há, pelo menos, dois jornalismos: o das maiorias e o das minorias. Um escrutina o outro. Isso significa que o jornalismo das maiorias é sujeito a um pequeno escrutínio e o das minorias a um grande escrutínio. Qualquer jornalista devia pensar bem nisto. O jornalismo do Benfica é, não sei se já ouviram, o das maiorias. Aqui estou a ser simpático, porque muitos dos comentadores encartados das televisões não são jornalistas, mas antes uma espécie de humor autodepreciativo da classe. Vamos ali buscar um seccionista ao Benfica (que é um clube com falta de voz e representação) e damos-lhe o fundamental, isto é, um blazer com cotoveleiras. Mas estou a derrapar. O jornalismo do Benfica é o das maiorias. Um jornalismo de maiorias consegue criar visões deturpadas do mundo - imagino que concordam - com mais facilidade do que o jornalismo das minorias. Se o fizer com a intenção e o planeamento de uma máquina de comunicação como a que o Benfica conseguiu repartir pelas televisões, é invencível, a menos que os jornalistas façam a si próprios a pergunta: com tanta gente a dizer o mesmo, não seria mais "jornalístico" experimentar outro ponto de vista? Escrevo isto porque, nos dois últimos dias, o segredo de justiça é uma ficção sem valor, Paulo Gonçalves um anónimo free-lancer, a administração do Benfica uma pobre vítima formada por clones do general Ramalho Eanes e os emails que estão para trás, perdão, quais emails que estão para trás? Havia uma investigação e o suspeito, seguríssimo da inocência, procurou inocentemente saber o que tinham para ali inventado, sem pensar, na sua candura, que podia magoar os nobres benfeitores que o tiraram do relento da Circunvalação e lhe deram um teto.