Sub-19, cortiça e vinho do Porto

Porque é que o Estado se preocupa tanto com todos os produtos nacionais de exportação, menos um?

Comecemos por desfazer um equívoco sobre os sub-19: dos campeões europeus, ou mesmo mundiais, da formação, pouquíssimos chegam a ter nível de Liga dos Campeões. Sugiro uma busca na internet pelo Nigéria"1999, de sub-20, considerado instrumental na saga vencedora das seleções espanholas. Dou um rebuçado ao seguidor normal do futebol que reconheça quatro jogadores daquela lista, ou seja, outro para além de Xavi, Marchena e Casillas, que era suplente de um tal Aranzubia. Só por curiosidade, o guarda-redes titular do Brasil dava pelo nome de Fábio e o número 2 chamava-se Júlio César (ex-Benfica, campeão do mundo). É assim quase sempre. O mito da formação nas seleções não é muito diferente do mito da formação nos clubes. Entre os sub-19 e a alta competição há uma debulhadora que deixa escapar uma percentagem pequena. Mas ganhar campeonatos europeus e mundiais na formação, sobretudo tantos como Portugal ganha, significa sempre que se produzem muitos jogadores de qualidade, se não para a Champions, pelo menos para fornecerem ligas intermédias e animarem o mercado internacional. Vou levar nas orelhas por escrever isto, mas estamos literalmente a falar de um produto de exportação, com um certificado de qualidade na linha do vinho do Porto ou da cortiça. A diferença é que o vinho de Porto está protegido por regras comerciais, enquanto esta seleção portuguesa de sub-19 já alinhou com cinco jogadores que competem fora de Portugal, a troco de verbas insignificantes. E a tendência será para aumentar essa emigração precoce. É o mesmo que levarem daqui as vinhas e os sobreiros, em vez do vinho e da cortiça. Porque é que o Estado pode empenhar-se tanto em evitar uma coisa e absolutamente nada em prevenir a outra?