Sapo jurídico para engolir

Se o Moreirense for condenado em última instância e a SAD escapar ao castigo, o futebol profissional fica (ainda mais) mergulhado na hipocrisia

A condenação do Moreirense por corrupção levanta um problema ao futebol profissional se vingar a tese, defendida pelo advogado dos minhotos, de que a SAD - constituída depois dos ilícitos - é uma entidade diferente e por isso livre das punições desportivas respeitantes ao clube. Enquanto a sentença não transitar em julgado, a Liga e os seus associados têm tempo para pensar na vida: será melhor engolir o detalhe jurídico e fingir que, de facto, não é o mesmo Moreirense ou, por uma vez, ir além dos discursos bonitos e tomar atitudes? Porque a própria sentença do tribunal só vale pela condenação. As penas estão todas suspensas a troco de umas minimultas que não passam dos cinco mil euros. O sarilho aumenta porque os casos Mateus e Apito Final deixaram evidente que é desaconselhável avançar para castigos duros sem o devido respaldo de uma sentença judicial clara. Encerrar este processo, mesmo depois de esgotados todos os recursos, sem esclarecer a dupla identidade do Moreirense será correr o risco de pagar os estragos mais à frente, como sucedeu com o Boavista e o Gil Vicente. E se houver esclarecimento a favor da participação da SAD na I Liga, será ainda pior, porque o crime passará impune (ou pelo menos muito barato) nas barbas de toda a gente. É sempre comovente a preocupação com os jogos viciados, as apostas, o fair-play, etc., etc., mas o momento não está para discursos floreados; está para exemplos.

Nota: o melhor do acórdão Moreirense é o registo de que cinco jogadores (em seis tentados) recusaram o suborno. Há esperança.