Os Centenos são centenas

O Estado não pode ir ver o Benfica há 45 anos. Nem o FC Porto. Nem o Sporting. Mas vai e já não tem margem para isso

Nos nossos dias, dizer a verdade é uma arma que não se pode usar só quando achamos conveniente. E a verdade desta última semana é que o circuito dos convites para jogos nunca foi exclusivo do Benfica, nem de Mário Centeno. Na tribuna presidencial ou dois metros ao lado, sempre houve ministros e adjacentes. Se formos vasculhar a correspondência de todos os clubes, concluiremos que, com ou sem pedido, são enviados para chefes da polícia, das repartições de Finanças, e outros. E não há qualquer problema, até ao dia em que um jornal conecta um perdão fiscal a um email do ministro das Finanças a solicitar lugar nos camarotes. Centeno explicou que vai ao estádio ver o Benfica há 45 anos: errado. Isso era o Mário Centeno economista; o Mário Centeno ministro das Finanças é o Estado. Se o Estado for ver o Benfica de borla e houver um perdão fiscal, os cidadãos passam a desconfiar do Estado. O próprio Mário Centeno passou a ser um ativo do país; flagelando-se, prejudica-nos. Não é uma questão do Benfica, nem dos emails (ao contrário dos convites e ressarcimento de favores a quadros intermédios da Liga). Diz respeito a todos, e ultrapassa o futebol. Só não aceito que, à conta de oportunismos sacanas, misturem nesse aparte os jornalistas, cuja função é mesmo ter acesso às fontes de notícia: é para gerir esse relacionamento inevitável que há um código deontológico. Política e justiça não têm a mesma explicação para um contacto permanente, nem gozam, infelizmente, de um ambiente higiénico que nos faça transbordar de confiança no próximo. Vivemos num mundo que é o oposto da higiene. Se os emails não provarem mais nada, ao menos essa parte ficou cristalina de uma vez por todas.