O local do crime

José Manuel Ribeiro

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Caso Canelas, somado ao dossiê agressões a árbitros, significa que as associações distritais podem fazer muito melhor

Ontem intersetaram-se dois temas reincidentes desta época e das anteriores: o Canelas 2010 e as agressões aos árbitros. No primeiro caso, falamos de uma equipa dos distritais do Porto que toda a gente com acesso à internet pôde, em tempos, ver praticar atos de violência e intimidação durante jogos de futebol sem provocar nenhuma resposta visível, nem dos árbitros, nem das autoridades, nem da Associação de Futebol local. No segundo caso, temos uma sucessão de ataques a árbitros dos escalões mais baixos que é impossível desligar da forma como, todos os dias, se fala deles aos microfones e gravadores. São dois problemas complicados com soluções simples, por exclusão de partes: leis, regulamentos e (surpresa) responsabilização. Uma agressão não é um problema futebolístico; é um crime. E uma equipa violenta tem de ser uma equipa com muitos jogadores castigados ou, eventualmente, uma equipa extinta. Se não for, deve ser possível pedir responsabilidades a quem organiza (neste caso, a AF Porto) e a quem supervisiona (a FPF). As agressões aos árbitros não são diferentes. É edificante ter um discurso moralista, se calhar até é obrigatório fazer esse papel, mas o futebol nunca será (felizmente) lavável com lixívia. Falar em agressões aos árbitros não tem significado por si só. Leva a considerações redondas e generalistas como "é o povo que temos" ou a culpar o discurso deste ou daquele, consoante a cor de que gostamos. Mas uma agressão a um árbitro no singular tem um local específico, tal como um ambiente violento ou propício tem um local específico e pessoas específicas, que é possível detetar: é isso que o Canelas+agressão a um árbitro significa. As associações distritais não podem ser só aquela figura que aparece nos escombros a abanar a cabeça ou a indignar-se com a atmosfera.