Futsal e o fado da monogamia

Vitória no Europeu pode ser o arranque definitivo de uma modalidade que, finalmente, roube alguns hectares ao futebol

Como é que demos em monógamos? Porque é que gostamos tão pouco do que não é futebol? As esparsas facadas que fomos dando nesse matrimónio tão casto têm razões distintas. Nos anos 60 do século passado, o ciclismo, o hóquei em patins e o ténis internacional aceleraram porque o futebol tinha medo de que a televisão lhe esvaziasse os estádios e ficaram eles com quase 20 anos de tempo de antena. Carlos Lopes e Rosa Mota tiveram de ganhar maratonas olímpicas para conseguir o mesmo. Décadas passadas e revista a relação futebol/TV, eis-nos outra vez na rotina da posição de missionário, já quase esquecidos dos antigos calores por essas quatro modalidades. Mas o futsal é diferente. Começa por ser futebol em ponto pequeno (nada de pessoal, grande Ricardinho), circunstância que simplifica muito o marketing, e por cair no âmbito da única instituição desportiva em Portugal com estratégia e, em simultâneo, capacidade de investimento. A FPF cheirou a oportunidade e fez o que já devia ser normal, em qualquer federação ou clube de primeira linha: tirou dela tudo o que podia. É injusto pedirmos o mesmo a quem não tem meios equivalentes, mas, em Portugal, é sempre muito forte a probabilidade de se gastar mal o dinheiro. A FPF de Fernando Gomes parece gastá-lo bem, a construir coisas que tenderão a caminhar pelos próprios pés, e este novo futsal cai nessa categoria. A Federação não o inventou; tirou-o das paróquias e deu-lhe autoestima, ajudou a criar figuras, equiparou-o à Seleção principal de futebol. Dirão que a maior parte do trabalho foi feita pelos clubes e é verdade, mas eles não começaram a trabalhar bem só há seis anos. Nós é que nos fomos apercebendo melhor depois disso. Porque alguém soube chamar-nos a atenção.