Podem e mandam

Antes de ser justa ou injusta, a promoção de Vítor Pataco à presidência do IPDJ é outra bofetada nos cidadãos de segunda

A promoção de Vítor Pataco à presidência do Instituto do Desporto (IPDJ), depois de demitido Augusto Baganha, navega entre a irrelevância e o descaramento. A irrelevância reside no papel do IPDJ, que vai perder a curto prazo a jurisdição sobre as claques e, com ela, as atenções sempre venenosas do futebol profissional. A pouca-vergonha leva mais tempo a explicar. No momento em que, ao fim de nove anos de surdez, o Instituto castiga o Benfica por apoiar ilegalmente as suas claques (que não estão registadas, como exige a lei), o Governo tinha a obrigação de abrir um inquérito para explicar aos cidadãos esta década de omissões e acusações graves. Há duas muito importantes. A primeira é a existência, revelada pela Imprensa, de um relatório estatal de 95 páginas que menciona vários autos da polícia, ao longo dos anos, narrando exemplos de apoio do Benfica às claques (que o IPDJ ignorou). A segunda é a acusação, nunca desmentida pelo Instituto, de que era o vice-presidente Vítor Pataco, ex-funcionário do Benfica, o responsável pelo processo das claques benfiquistas. Pataco pode ser o mais sério, o mais preparado e o mais competente dos administradores públicos - acredito que seja -, mas chega ao cargo como prova da existência, em Portugal, de cidadãos de segunda classe. Porque é o que sucede quando, tantas e tantas vezes, se deixa tão claro que as leis não são para todos. Nomear Vítor Pataco sem, pelo menos, esclarecer estes nove anos é mandar metade do país àquele sítio. E a rir dos palermas que votam, incluindo benfiquistas. É que se há imunidades para clubes, também há para partidos, para amigos, etc., etc.

Nota: o futebol profissional é uma incumbência microscópica do IPDJ, que é muito mais importante para todas as outras modalidades. Com o carácter certo, não falta ali o que estragar.