O Estado galdéria

Os dossiês e-Toupeira e IPDJ são a mesma coisa: quando não é um grupo a abusar do Estado, é o Estado que se abusa sozinho

A Justiça e o Estado não podem ser a casa da tia. É por isso que os dossiês e-Toupeira e IPDJ se misturam. Em ambos, houve desenvolvimentos ontem, começando pela decisão do Ministério Público de levar Paulo Gonçalves e o Benfica a julgamento por vários crimes relacionados com o acesso indevido a processos judiciais em segredo de Justiça. A rapidez invulgar desta acusação sugere convicção do MP (ou seja, provas), mas também nos faz imaginar a grande despreocupação com que estas trafulhices são feitas em Portugal - e não, não é só o Benfica que as faz, muito menos o futebol, embora esse facto só aumente a importância do julgamento. No caso IPDJ, o ex-presidente Augusto Baganha entendeu contestar a sua demissão pelo secretário de Estado e confirmou a O JOGO um detalhe que não ajuda, propriamente, a desintoxicar o ambiente: foi demitido depois de ter decidido castigar o Benfica com um jogo à porta fechada por apoio ilegal às claques. É inconcebível que a secretaria de Estado não entenda o impacto público de, nesse preciso momento, trocar Baganha pelo vice-presidente (Vítor Pataco) acusado de arquivar, sistematicamente, as acusações contra o Benfica. É inconcebível que um Governo tão preocupado com o conflito e a clivagem no futebol não perceba que está a agravar o problema e a pôr-se numa posição tão absurda como desnecessária. E a despreocupação com que o faz, sem ligar às aparências, é a mesma com que se espia (ou espiava) processos judiciais. Não só o Estado é mesmo a casa da tia, como a tia gosta de ser apanhada na cama com os sobrinhos preferidos.