A política do silêncio

José Manuel Ribeiro

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Faz pouco sentido clamar por mística e depois agir, fora do relvado, sempre com indiferença e apatia

Há uns anos, o Sporting decorou o túnel de Alvalade com fotos de adeptos raivosos e foi o fim do mundo até que a UEFA, caída de paraquedas no assunto, mandou trocar os hooligans por margaridas e lilases. Mas o diagnóstico estava certo. O Sporting era demasiado tecnocrata, conciliador e previsível, apesar de falar muito de arbitragens desde sempre. A maior conquista de Bruno de Carvalho foi ter obliterado essa imagem de clube de cavalheiros do século XIX, ainda que, eventualmente, exagerando na dose e criando, no lugar dela, radicalismos com tantos ou mais inconvenientes. O lado positivo é que toda a gente, equipa incluída, tem a perceção de que o Sporting está sempre na luta e de olhos abertos, mal ou bem. Não se trata só de intimidar os árbitros, nem esse é um atributo desejável para um futebol higiénico, como é evidente. Falo de competitividade e adrenalina, também fora do campo; falo de mostrar cá fora aquilo que se exige aos jogadores lá dentro e, sobretudo, de exibir número, força e autoridade quando se pressente que há uma oportunidade para isso. Faz pouco sentido falar muito de "mística" ou similares e depois passar para o exterior uma crescente imagem de apatia e passividade, ou até de isolamento e falta de partidários, mais ainda nos casos em que os adversários vão conseguindo convencer o público de que ali já não há nada o que recear. Às vezes, o silêncio é mesmo só medo do que os outros vão pensar se abrirmos a boca.