A justiça

O Conselho de Disciplina desfez uma injustiça para com um delegado da Liga. Não parece, mas é o essencial da missão

1 - Não é, propriamente, uma tradição na justiça do futebol: o presidente do Conselho de Disciplina da FPF assumiu um erro. Fábio Coentrão danificou o banco de suplentes do V. Setúbal, uma semana antes de Sérgio Conceição fazer o mesmo ao do Moreirense. O treinador do FC Porto pagou 800 euros de multa; o jogador do Sporting pagou zero. No Dragão, os canhões foram imediatamente apontados ao delegado da Liga, que era o mesmo nos dois jogos. Reportou Sérgio e escondeu Fábio? José Manuel Meirim esclareceu que não: o relatório do delegado menciona o facto; o Conselho de Disciplina é que, "erradamente", ilibou o lateral-esquerdo. Com um comunicado, Meirim desfaz um daqueles mitos urbanos sobre o delegado que nunca mais lhe sairia da pele, penitencia-se pelo duplo critério do CD e, acima de tudo, mostra o que é verdadeira preocupação com a justiça. Não a dos regulamentos, nem das engenharias jurídicas, mas aquela que as pessoas - o delegado, neste caso - sentem na carne. O FC Porto ganharia em fazer o mesmo.

2 - Quem assistiu à comunicação de Bruno de Carvalho aos sócios com clareza de espírito e distanciamento sabe que aquilo, seja lá o que tenha sido, não pertence ao domínio, digamos, da lógica. De futebol, só posso escrever isto: aquela hora de surrealismo que tantos jornais, televisões e rádios se esforçam por ver à luz de uma racionalidade que não teve não ajuda a equipa, nem o Sporting, nem mesmo o seu presidente. Bruno de Carvalho criou uma tempestade inoportuna, de uma futilidade extrema, que procurou justificar de emergência, acrescentando-lhe mais futilidades. Podemos simular que ouvimos o discurso de um presidente como os outros, e que nada daquilo é anormal, nem inquietante, nem embaraçoso, mas estaremos a enganar-nos. Afirmá-lo é uma obrigação do jornalismo.