A claque não quer, que se há de fazer?

A claque não quer, que se há de fazer?

Entrevistas (alarmadas) do diretor de segurança do Benfica sobre o futuro cartão de adepto sugerem que a proposta acerta na mouche

A Assembleia da República vai votar uma proposta de lei que cria, nos estádios, zonas exclusivas para as claques da casa e às quais só têm acesso membros registados e munidos de um novo cartão de adepto, facultado pela futura Alta Autoridade para o Combate à Violência no Desporto. Fora desses espaços não haverá bombos, megafones, nem a habitual parafernália, por força de lei. Ou seja, acaba-se, especificamente, o festival do Benfica, cujas claques não são registadas, mas mantêm todos os privilégios das claques legais, a par do pior cadastro nacional. A esta notícia, o Benfica reagiu a jato com duas entrevistas alarmadas do seu diretor de segurança, contestando a proposta com base nesta cândida ideia: as claques da Luz não vão aceitar legalizar-se, porque entendem que os seus membros já são sócios do clube e que isso é registo suficiente. E como não aceitam, obrigadinho pela intenção, mas guardem lá isso. Para quê mudar e afrontar estes cavalheiros, se o Benfica até os controla, à parte um ou outro homicídio? O cartão do adepto, ideia do presidente da Federação, não é um beliscão ao Benfica; o Benfica é que tem sido um beliscão à lei da segurança. Com um registo destes, autónomo dos clubes (supomos nós, porque o Instituto do Desporto também era), passa a ser teoricamente possível limpar as bancadas de quem não tem maneiras, seja nos estádios, seja fora deles. E isso, a funcionar bem, será verdade para Benfica, FC Porto, Sporting e por aí adiante. O único argumento contrário que qualquer deles pode apresentar é a lista dos sócios que baniram a seguir a cada caso de mau comportamento nos últimos dez anos. Por lapso, com certeza, não há referência a nada parecido com isso nas duas entrevistas do preocupado diretor de segurança do Benfica.