Governo, futebol e Imprensa: quem vê o vírus mas não a floresta

Governo, futebol e Imprensa: quem vê o vírus mas não a floresta
José Manuel Ribeiro

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O Governo acha que o futebol NÃO é uma atividade económica e que a Imprensa é SÓ uma atividade económica

Têm os dois razão: o primeiro-ministro está certo quando diz que o futebol "não é uma prioridade" e o presidente da Liga também, quando exige a António Costa que trate o futebol como trata o turismo, a indústria ou a distribuição. Ignorar os problemas do futebol, como ignorar os problemas - se me permitem - da Imprensa não é administrar o país; é administrar a imagem do Governo.

Faz parte do calculismo político perceber como é que os eleitores vão entender as medidas, mas é incompetência e cobardia (no mínimo) não as tomar apesar disso, se elas contribuírem para o bem comum. O futebol é prioridade? Claro que não, mas salvar bancos à custa da depauperização do sistema de saúde também é uma escolha (boa ou má) que põe centenas ou milhares de vidas em risco. Fora o show off mediático, o futebol é receita fiscal e postos de trabalho que ficam tão ou mais comprometidas do que quaisquer outras atividades económicas similares.

Sem o preconceito do político carreirista, o futebol só devia poder ser visto com esta crueza a partir de São Bento. A Imprensa é diferente. O fecho dos quiosques, que o Governo manda agora reabrir por decreto, foi um golpe duro que ameaça tirar do nosso controlo a gestão da trajetória de crise, numa permanente nuvem de asteroides. A ameaça não é para a Imprensa, nem para os jornalistas: é para os cidadãos e para a democracia, e já dura há uma década sem reação dos governos nacional ou europeu. E tem graça. A mesma política que teima em não ver que o futebol é uma atividade económica, também se recusa a perceber que a Imprensa é muito mais importante do que isso. Mesmo quando um vírus lhe faz pousar essa realidade na única coisa que vê diante dos olhos: a ponta do nariz.