FIFA: uma reforma que pode ser uma purga

FIFA: uma reforma que pode ser uma purga
José Manuel Ribeiro

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Gianni Infantino viu na pandemia uma bela oportunidade para impingir os seus planos comerciais?

Depois de um ano a tentar vender um mega Mundial de clubes e um campeonato do Mundo com 48 seleções, o presidente da FIFA disse, em entrevista à "Gazzetta dello Sport", que o futebol precisará de dar "um passo atrás". Essas três palavras são as únicas que consigo engolir. Há muitos anos que o futebol tem de dar um passo atrás, mas o vírus não acrescenta nada aos problemas. Quaisquer que sejam as reformas de que Infantino fala, nenhuma delas impedirá prejuízos quando aparecer outra pandemia. O futebol será sempre um brinquedo demasiado caro para estar parado e a FIFA, que se saiba, não é a Organização Mundial de Saúde.

Gianni Infantino teve uma epifania durante o isolamento? Viu a luz? Se a viu, é uma luz muito parecida com a do Mundial de clubes que quis vender aos europeus por 20 mil milhões de euros. As poucas revelações que fez sobre a reforma são estranhamente coincidentes com esse projeto: "menos equipas" (no sentido de que as provas nacionais estariam condenadas) e mais "equilíbrio competitivo" garantido pela chuva de dinheiro que os "investidores" prometiam aos tubarões. O dinheiro é o primeiro problema do futebol, se calhar até será o único. A inflação demencial de passes e salários está na origem de tudo. É por causa dela que uma indústria de dezenas de milhares de milhões de euros gasta tudo o que tem e fica descalça quando acontece um imprevisto.

Não haverá equilíbrio enquanto essa insanidade não for travada, com tetos salariais, com limites orçamentais, com limites ao número de jogadores sob contrato, com redistribuição de riqueza e, sobretudo, não haverá equilíbrio com instituições como a FIFA desenhadas, exclusivamente, para a caça à receita por todos os meios possíveis. Infantino vai mudar isso?