Desmame nas televisões

José Manuel Ribeiro

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Vender indignação aos adeptos com análises e profecias cronicamente erradas desintoxica o clima?

Televisão, segunda parte. Se os adeptos são tóxicos, e os programas de adeptos infiltrados por escroques mais tóxicos ainda, qual é o qualificativo para jornalistas/comentadores que semeiam a indignação na audiência (e o mais que daí advém) com décadas de previsões cataclísmicas falhadas? E que, apesar de serem constantemente contrariados pela realidade, mantêm o tempo de antena para espalharem mais informação tonta e análise infundada? De acordo com alguns "analistas", o futebol português devia estar extinto desde finais do século XX e as seleções condenadas à decrepitude.

Depois disso, houve quatro taças internacionais de clubes, duas de seleções e mais cinco finais. Em janeiro, até havia um clube tão grande, mas tão grande, em Portugal que ia engolir os outros todos. Ainda agora, o FC Porto está condenado a falir. E se não estiver? Visto que a falência de grandes clubes na Europa é muito rara e que, em Portugal, nunca aconteceu, qual é a fundamentação de uma profecia dessas? O autor será penalizado por impulsionar a "toxicidade" dos adeptos com baboseiras?

Durante anos, ouvimos um vidente repetir na televisão que o videoárbitro - chamado na altura, "novas tecnologias" - seria a panaceia do futebol podre. Lançaram-se abaixo-assinados e foram visitados ministros. Mas, para qualquer cidadão de olhos abertos, era óbvio que não haveria milagre, porque é mais difícil desintoxicar os adeptos do que intoxicá-los. E desintoxicar traz menos audiências do que a má informação, dirigida para o que o adepto tóxico quer ouvir: que o sistema é corrupto, que os dirigentes são todos incompetentes e bandidos, que o futebol jogado é péssimo, que o futuro será deplorável e que a única pessoa séria e competente no país é aquele cavalheiro atrás do microfone que nunca dirigiu, sequer, uma banca de gelados.

Nem interessa que o cavalheiro não dê, comprovadamente, uma para a caixa.