Demasiado tontos demasiado tempo

José Manuel Ribeiro

Tópicos

O pior de tudo, para Pinto da Costa, é a sugestão pateta (e reincidente) de que foi fácil

Estamos em boa altura para falar nisto: o maior insulto que se pode fazer aos 35 anos de presidência recordista de Pinto da Costa é esta sugestão permanente de que os adversários não deram luta. Que se limitaram a assinar declarações de voto indignadas no final das assembleias gerais. Que cruzaram os braços, amorrinhados, enquanto o FC Porto se apossava do campeonato. Que Pinto da Costa foi rei em terra de cegos, ou seja, que um clube rico e desmesurado como o Benfica, vizinho de governos, deputados e presidentes da República, era um clube inanimado e que assim se manteve durante três décadas, sem mexer uma palha, como um elefante encolhido numa loja de porcelana. Melhor: dois elefantes encolhidos, porque também havia o Sporting, mesmo ali ao lado. Dois clubes do tamanho do Cristo Rei, de olhar perdido, contemplando cada pôr-do-sol azul com absoluta impotência, época após época, durante trinta anos. Repito: trinta anos. Trinta anos é muito tempo para fazer de estátua; é muita assembleia geral, muito conselho de arbitragem, muito presidente da Federação, muito regulamento, muita contratação. Trinta e cinco anos, para falarmos da presidência de Pinto da Costa, é quase toda a história do futebol nacional, dos Cinco Violinos (1946) até ao FC Porto de Pedroto, sobrevoando as décadas benfiquistas de 1960 e 70. Para ser fácil, como se diz, seriam necessários demasiados tontos, demasiado tempo.