Cortes salariais no futebol: uma medida só para os mais ricos

Cortes salariais no futebol: uma medida só para os mais ricos
José Manuel Ribeiro

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Só clubes com muito dinheiro podem cortar salários de jogadores com justiça. É um paliativo que os pobres não têm e um fator de desequilíbrio

As generalizações são boas. Servem-nos para economizar o cérebro. Mas também são más, quando não estamos conscientes de que é para isso que elas servem. "O" jogador de futebol profissional generalizado ganha um iate por mês, conduz automóveis arraçados de fórmula 1 e mora em palácios. O jogador real, em média, pode ter um salário que só paga as despesas, morar num t2 (na melhor das hipóteses), e pôr cinco euros de gasóleo no Volkswagen Golf uma vez por semana.

No topo dos topos, ou seja, nos grandes clubes das grandes ligas, sim, seria justo que houvesse uma contribuição dos jogadores para cobrir o rombo que o vírus de 0,2 micrómetros abriu no futebol. Ganham tanto dinheiro que não podem ser vistos como assalariados. São associados, como acontece nas firmas de advogados, e os associados devem partilhar lucros e riscos. Os próprios contratos chegam a ser de empresas com empresas.

Infelizmente, essa é uma medida que vai perdendo eficácia e ficando mais injusta consoante se vai descendo na hierarquia. Nos clubes menos ricos das grandes ligas, os privilégios dos jogadores já não são tão claros. Talvez se conseguisse encaixar esse cenário em dois ou três clubes portugueses, mas não sem grande luta, e quanto mais descermos mais verificamos o óbvio: para ser 100% justo, o corte de salários é uma medida que, para ser eficaz, só está ao alcance dos ricos, logo, uma medida que os favorece, logo, um fator de desequilíbrio que, no final deste rebuliço do vírus, terá servido para aumentar ainda mais as distâncias. Mas o povo gostaria.