Conceição, Amorim e o escaravelho

Conceição, Amorim e o escaravelho

Há um tipo de adepto licenciado, engravatado, de boas maneiras à mesa e coluna num jornal, que interessa tanto ao futebol como o mais reles dos hooligans.

Se Sérgio Conceição está próximo de registar números inéditos no campeonato, talvez uma parte do mérito pertença ao Sporting de Amorim. Acredito que o repto de 2020/21 tenha forçado o FC Porto a superar-se, porque este é um grande Sporting, desafiante a muitos níveis, incluindo em áreas - como a mentalidade - pouco habituais nestes famosos quarenta anos.

Essa é uma das duas características que distinguem o adepto dispensável: a incapacidade de ver o adversário como ele realmente é. Escrevo isto depois de ler, noutro jornal, um artigo que deveria ser emoldurado e levado a todos os colóquios, congressos e comissões sobre a violência no desporto.

Revelar o autor adulteraria o propósito deste comentário: basta dizer que não tem a desculpa da falta de formação (como se ter um curso definisse o caráter), nem de educação (segundo o próprio, e repetidas vezes), nem de berço (por oposição à manjedoura que embalou o adversário). Os textos, que acompanho como um zoólogo faria com um escaravelho, sofrem de um dos poucos defeitos de que nem o clubismo deveria poder sair impune: o preconceito que atribui a todos os elementos do clube odiado (dirigentes, funcionários, jogadores e adeptos) as piores perversidades imagináveis.

Não devo precisar de explicar que nome daríamos a essa generalização, sem hesitações, se pegássemos nalguns daqueles artigos e trocássemos o fator camisola pelo fator cor da pele. Mas o mais luminoso, aquilo que ressalta na semana de um clássico que soma os dois melhores competidores da última década (pelo menos) e deveria ser assim celebrada, é a incapacidade do meu escaravelho para "ver" o adversário, a quem não aponta uma única qualidade, um único ponto positivo. É como aquele amante que só consegue consumar o ato se puder ver-se ao espelho.