A solidão tem bateria de lítio

José Manuel Ribeiro

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O "génio trivial" Carlo Ancelotti aponta o óbvio que todos escondemos no bolso direito das calças

A pesar das duas Ligas dos Campeões, Carlo Ancelotti não é dos treinadores que me fazem parar e prestar atenção quando falam de tática, mas convém ouvi-lo quando fala de jogadores. Na autobiografia "Os Belos Jogos de um Génio Trivial", conta que uma vez mandou àquele sítio, no melhor vernáculo, um adepto do Milan que insultava Clarence Seedorf, a quem o técnico insistia em pôr no onze, apesar da provecta idade. O adepto gritava ao holandês que voltasse ao Parma para se encher de tortellini [um tipo de massa]. "Eu não estava a defender o Seedorf", esclareceu Ancelotti. "Simplesmente, não suporto que alguém insulte um bom prato de tortellini." Todos os problemas encolhem desta maneira com ele, até os de um balneário tão neurótico e histérico como o do Real Madrid. Por isso, é bom tomar notas quando, de repente, Ancelotti começa a dramatizar. Lá no fundo, todos intuímos, de uma maneira ou outra, a solidão que escorre dos telemóveis inteligentes e que o italiano [ler artigo abaixo] culpa pela quase extinção dos estágios: "Alguns jogadores ficariam três horas colados ao ecrã. Quando eu era jogador, os estágios serviam para falarmos, trocarmos ideias (...) Agora, isso só acontece quando estão juntos à mesa." Se calhar, quando procuramos entender as trajetórias descendentes de treinadores como José Mourinho, ou a resistência de algumas equipas à constituição de qualquer coisa que se assemelhe a um espírito de grupo, ou a desadaptação de futebolistas que estão por cá há anos (Carrillo, Markovic, Aboubakar...), a resposta está no mundo. Muda depressa e temos preguiça de o perceber. O ano de 2016, que está mesmo à mão, foi um senhor exemplo.